A China apresentou uma nova versão de sua principal tecnologia nacional de geração de energia nuclear. Batizado de Hualong One 2.0, o projeto representa uma atualização do reator Hualong One, um modelo de terceira geração desenvolvido por empresas chinesas e que já é utilizado em usinas nucleares no país e no exterior.
A nova versão incorpora mudanças no sistema de segurança, na construção e na operação dos reatores. Segundo informações divulgadas pelo grupo de trabalho responsável pela integração das inovações, o Hualong One 2.0 foi desenvolvido a partir da experiência acumulada durante a construção e a operação dos reatores da primeira geração do projeto.
O Hualong One é um reator nuclear de água pressurizada, conhecido pela sigla PWR, desenvolvido pela China como uma tecnologia própria de terceira geração.
O modelo foi desenvolvido a partir da integração de tecnologias e experiências acumuladas pelas duas principais empresas estatais chinesas do setor nuclear, a China National Nuclear Corporation (CNNC) e a China General Nuclear Power Corporation (CGN). O objetivo foi criar um projeto padronizado de grande escala, com sistemas de segurança modernos e elevado grau de produção doméstica.
Como outros reatores PWR, o Hualong One utiliza água sob alta pressão para transportar o calor produzido pela fissão nuclear no núcleo do reator. Esse calor é utilizado para produzir vapor, que movimenta turbinas e gera eletricidade.
A principal característica do Hualong One, portanto, não é apenas a produção de energia nuclear, mas a combinação de um projeto padronizado com sistemas de segurança ativa e passiva, além de uma cadeia de fornecimento construída em grande parte dentro da própria China.
A versão 2.0 não é um reator completamente novo. Trata-se de uma atualização sistemática do projeto original, incorporando mudanças obtidas a partir da experiência acumulada nas obras e na operação dos Hualong One já construídos.
Entre as principais alterações estão melhorias nos sistemas de segurança, simplificação de equipamentos e tubulações, aumento da automação e adaptações para condições climáticas extremas.
De acordo com os responsáveis pelo projeto, a nova versão foi desenvolvida em cinco grandes áreas: segurança, prazo de construção, custos, operação e manutenção e proteção ambiental.
A segurança é um dos principais pontos da atualização. O projeto combina sistemas ativos e passivos e foi concebido para permitir que a usina mantenha uma resposta autônoma a acidentes sem depender imediatamente da intervenção dos operadores.
Segundo os responsáveis pelo projeto, o Hualong One 2.0 pode permanecer por até 72 horas sem intervenção dos operadores após um acidente e manter uma capacidade autônoma de resposta por até sete dias.
Uma das principais mudanças está no sistema de resfriamento do núcleo do reator. Após o desligamento de um reator nuclear, continua existindo calor residual no combustível, o que torna necessário manter o núcleo refrigerado.
Na nova versão, sistemas passivos permitem utilizar a gravidade, a circulação natural da água e a expansão do nitrogênio para movimentar o refrigerante. Dessa maneira, determinadas funções de segurança não dependem de bombas acionadas por energia elétrica.
A ideia é reduzir a quantidade de componentes que precisam funcionar corretamente em uma situação de emergência e diminuir a dependência de fontes externas de eletricidade.
Outro aspecto considerado no desenvolvimento da nova versão são as mudanças nas condições climáticas e eventos extremos.
O projeto considera uma temperatura de referência da água do mar de 45°C para estabelecer sua margem de segurança. O sistema de resfriamento também não depende exclusivamente da água do mar.
Tanques externos de água em alta temperatura podem funcionar como uma camada adicional de proteção em condições extremas, segundo os responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia.
O Hualong One 2.0 utiliza um núcleo com 177 conjuntos de combustível. Cada conjunto possui 264 varetas de combustível. O funcionamento do reator é regulado por conjuntos de barras de controle, que permitem ajustar a reação nuclear.
Nos reatores de água pressurizada, a fissão dos átomos do combustível nuclear libera calor. Esse calor é transferido para a água do circuito primário, mantida sob alta pressão para evitar que ferva. A energia térmica é posteriormente utilizada para produzir vapor em um circuito separado, que movimenta as turbinas responsáveis pela geração de eletricidade.
Uma das mudanças mais importantes do Hualong One 2.0 está na simplificação da estrutura da usina.
Segundo os dados divulgados pelo grupo responsável pelo projeto, a nova versão reduz em aproximadamente 31% o comprimento das tubulações e em cerca de 25% o número de válvulas de processo.
O volume dos edifícios da chamada ilha nuclear foi reduzido em aproximadamente 21%, enquanto o trabalho de instalação nessa área caiu cerca de 33%.
A redução de componentes pode facilitar a construção e a manutenção das usinas, além de contribuir para diminuir custos e prazos. O projeto também ampliou o nível de automação das unidades.
Outro objetivo da versão 2.0 é ampliar a autonomia tecnológica da China no setor nuclear. O projeto utiliza padrões chineses e foi desenvolvido para permitir a produção doméstica de equipamentos considerados essenciais.
Isso é particularmente relevante para um setor no qual os custos, a segurança e a disponibilidade de componentes especializados são fatores decisivos para a construção de novas usinas.
A consolidação de uma cadeia de produção nacional também permite à China oferecer o Hualong One como uma tecnologia para o mercado internacional, em vez de depender exclusivamente de projetos estrangeiros.
O Hualong One já deixou de ser apenas um projeto experimental. Segundo os dados divulgados pelo grupo responsável pela tecnologia, 11 unidades na China e no exterior já haviam entrado em operação comercial até setembro de 2026.
Outras 36 unidades haviam sido aprovadas ou estavam em construção.
O número de unidades construídas, em operação ou em diferentes estágios de desenvolvimento é utilizado pelas empresas chinesas como uma demonstração da maturidade comercial da tecnologia.
Sim. O Hualong One é classificado como uma tecnologia de reator nuclear de terceira geração. A versão 2.0 é apresentada pelos desenvolvedores como uma evolução do projeto dentro da categoria conhecida como Geração III+.
A chamada terceira geração de reatores surgiu com o objetivo de incorporar sistemas de segurança mais avançados, maior padronização e melhorias de eficiência em comparação com projetos anteriores.
Um dos elementos que ganhou importância nesse processo foi o uso de sistemas de segurança passiva. Eles utilizam fenômenos físicos, como gravidade e circulação natural, para desempenhar determinadas funções sem depender necessariamente de bombas, motores ou intervenção humana.
O desenvolvimento de novos reatores nucleares passou por uma mudança importante depois do acidente de Fukushima, no Japão, em 2011.
O desastre levou governos e empresas do setor nuclear a reavaliar os mecanismos necessários para manter o resfriamento de um reator mesmo quando ocorre uma interrupção prolongada do fornecimento de energia elétrica ou uma combinação de eventos extremos.
É nesse contexto que os sistemas passivos ganharam maior importância. No Hualong One 2.0, a proposta é garantir que funções essenciais de segurança possam continuar operando mesmo diante de situações nas quais fontes convencionais de energia ou equipamentos mecânicos estejam indisponíveis.
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