“Triunfo da charlatanice”: Nobel de Economia explica interesses por trás do decreto antivacina de Trump

“Triunfo da charlatanice”: Nobel de Economia explica interesses por trás do decreto antivacina de Trump

  • 16 de agosto de 2026
  • Mundo
  • 16 de agosto de 2026
  • Mundo

Em meio ao maior surto de sarampo dos últimos 30 anos nos Estados Unidos, o presidente do país, Donald Trump, assinou uma ordem executiva em 10 de agosto propondo alterações na forma como vacinas infantis são administradas. Entre outras medidas, o documento orienta o aumento do intervalo entre algumas aplicações e a separação de imunizantes oferecidos de forma combinada.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) observou que as mudanças não são baseadas em evidências científicas consolidadas. Para o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, contudo, a medida não apenas carece de base científica, como representa um perigo iminente à saúde pública, impulsionado por interesses financeiros e ideológicos da extrema direita.

Para entender a adesão do Partido Republicano ao movimento antivacina, Krugman sugere seguir o dinheiro. Embora não haja lucro direto em ver crianças contraindo sarampo, há uma fortuna sendo feita com a desinformação médica.

“O sentimento antivacina é muito parecido com a negação das mudanças climáticas. Em ambos os casos, para entender a política por trás disso, é preciso fazer duas coisas”, aponta, em seu Substack. “Primeiro, seguir o dinheiro: observar quais grupos de interesse se beneficiam financeiramente da desinformação e por que esses grupos detêm o poder. Segundo, acompanhar a guerra cultural: questionar por que essa desinformação específica encontra eco nos preconceitos e queixas de um segmento da população.”

Interesses econômicos por trás do movimento antivacina

O economista pontua que, à primeira vista, os interesses financeiros por trás das políticas antivacina são menos óbvios do que os interesses dos combustíveis fósseis que apoiam a negação das mudanças climáticas. Mas é possível seguir trilhas para se chegar ao dinheiro.

Leia também:

Ataques de Nikolas e Eduardo Bolsonaro geram onda de defesa das vacinas nas redes

Vaiado, Flávio Bolsonaro abandona São Januário antes do fim de derrota do Vasco para o Santos

O “método Ted Lasso” funciona na vida real? A ciência responde

“Vender remédios milagrosos, no entanto, é um negócio altamente lucrativo. E é um negócio profundamente entrelaçado com o ecossistema da mídia de direita: anúncios de suplementos alimentares sem benefícios médicos comprovados e outras formas de charlatanismo têm sido, por décadas, uma importante fonte de receita para programas de rádio de direita, sites de teorias da conspiração e muito mais”, afirma.

Krugman dá alguns exemplos que ilustram essa relação. “Portanto, existe uma conexão antiga entre charlatões que promovem curas falsas e a política de extrema-direita. Alguns observadores ficaram surpresos ao ver o Dr. Mehmet Oz — que já promoveu, entre outras coisas, as maravilhas do colostro bovino para a saúde — nomeado por Trump como administrador do Medicare e Medicaid, um cargo para o qual ele não possui qualificações relevantes. Mas, dados os incentivos monetários e políticos subjacentes, a nomeação de Oz não é nenhuma surpresa.”

A herança da pandemia

O terreno para essa radicalização foi pavimentado pela chamada guerra cultural. Krugman define a direita moderna como um movimento “profundamente anti-intelectual, anti-ciência e anti-especialista” e a indústria de produtos milagrosos direciona seu marketing para o tipo de pessoa que ouve os discursos inflamados de influenciadores de direita. “Ao enquadrar suas falsas alegações como ‘Os Milagres Médicos que as Elites Não Querem que Você Saiba’, os charlatães criam um público receptivo a teorias da conspiração que difamam verdadeiros milagres médicos, como as vacinas.”

Esse sentimento explodiu durante a pandemia de covid-19, de acordo com o Nobel de Economia. “Os americanos que já tendiam a acreditar que as elites os perseguiam, que já eram hostis a qualquer noção de ação coletiva para o bem comum, reagiram com fúria às medidas preventivas contra a covid-19”, analisa. Essa fúria, alerta o economista, generalizou-se para todas as doenças.

“Graças a Trump e ao triunfo da charlatanice, muitas crianças americanas adoecerão com doenças evitáveis, algumas delas morrendo”, conclui Krugman.

Redação Panorama em Foco
Sobre o autor

Redação Panorama em Foco

O Panorama em Foco é um site de notícias comprometido em trazer informações relevantes e atuais para nossos leitores.

Nossa equipe de jornalistas e colunistas está sempre a procura das notícias mais importantes para que você possa estar sempre informado sobre o que está acontecendo no mundo.

Aqui, o mundo está sempre em foco!