No sudoeste da China, entre grandes cadeias montanhosas, florestas, lagos, cidades históricas e algumas das paisagens mais conhecidas do país, está Yunnan, uma província que se tornou um dos principais destinos turísticos chineses.
Conhecida como a “terra ao sul das nuvens”, Yunnan combina uma geografia excepcionalmente diversa com uma grande variedade cultural. A região abriga dezenas de grupos étnicos, antigas rotas comerciais, áreas de preservação ambiental e cidades que preservam características arquitetônicas e tradições de séculos.
O resultado é um dos mercados turísticos mais movimentados da China. Em 2025, Yunnan recebeu cerca de 782 milhões de visitas turísticas, enquanto os gastos totais dos turistas chegaram a aproximadamente 1,27 trilhão de yuans. Os dois indicadores atingiram recordes históricos, com crescimento anual de 11,8% e 11,5%, respectivamente.
Localizada na fronteira com Mianmar, Laos e Vietnã, Yunnan ocupa uma posição estratégica no sudoeste chinês. A província faz parte de uma região de transição entre o planalto tibetano, o Sudeste Asiático e o interior da China.
Sua geografia ajuda a explicar a variedade de paisagens. Há montanhas cobertas de neve, vales profundos, florestas tropicais, campos agrícolas, rios, lagos e formações geológicas que levaram milhões de anos para adquirir suas formas atuais.
Entre os principais símbolos naturais está a região conhecida como Três Rios Paralelos de Yunnan, onde os rios Jinsha, Lancang e Nujiang correm aproximadamente em paralelo por uma área montanhosa de enorme biodiversidade.
Paisagens montanhosas em Yunnan (Foto: Axel R sob licença Creative Commons)
A região é reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial Natural. O local registra processos geológicos associados à colisão da placa tectônica indiana com a eurasiática e à formação do Himalaia e do planalto do Tibete.
Essa combinação de altitude, clima e relevo também faz de Yunnan uma das regiões biologicamente mais diversas da China.
Entre os destinos mais conhecidos está Lijiang, no noroeste da província.
A cidade antiga de Lijiang foi inscrita pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1997. Situada a cerca de 2.400 metros de altitude, ela preserva uma arquitetura tradicional adaptada ao relevo montanhoso e um antigo sistema de abastecimento de água que continua funcionando.
Centro de Lijiang (Foto: Flickr sob licença Creative Commons)
Suas ruas de pedra, canais, pontes e casas de madeira fazem da cidade um dos destinos turísticos mais populares de Yunnan.
Mas Lijiang não é apenas um cenário histórico. A cidade está profundamente associada ao povo Naxi, um dos grupos étnicos que habitam a região.
A posição geográfica também foi fundamental para sua história. Durante séculos, Lijiang funcionou como um centro comercial entre Yunnan, Sichuan e o Tibete, integrando antigas rotas conhecidas como Caminhos do Chá e dos Cavalos.
A importância turística da região aumentou ainda mais com a expansão da infraestrutura ferroviária. Em 2023, uma nova ligação ferroviária entre Lijiang e Shangri-La foi inaugurada, aproximando destinos turísticos que anteriormente dependiam principalmente do transporte rodoviário.
Outro dos grandes polos turísticos de Yunnan é Dali.
Localizada às margens do lago Erhai e cercada por montanhas, a cidade é tradicionalmente associada ao povo Bai. Seu centro histórico preserva construções tradicionais, enquanto as áreas ao redor do lago combinam turismo, agricultura e atividades culturais.
Lago Erhai (Foto: Calegota/Commons)
A popularidade de Dali cresceu de forma acelerada nos últimos anos. Em 2025, a prefeitura de Dali registrou mais de 120 milhões de visitas turísticas, segundo dados divulgados pelas autoridades locais.
O fenômeno também acompanha uma mudança no comportamento dos turistas chineses.
Em vez de viagens rápidas, uma parcela crescente dos visitantes procura permanecer durante semanas ou até meses em destinos com clima agradável, natureza e infraestrutura adequada para uma estadia prolongada.
Dali se tornou um dos principais exemplos desse modelo.
No extremo norte da província está Shangri-La, na prefeitura de Diqing.
O nome da cidade remete ao mítico vale descrito no romance Horizonte Perdido, de James Hilton. O termo acabou sendo associado internacionalmente a uma espécie de paraíso perdido nas montanhas do Himalaia.
A realidade de Shangri-La, porém, é igualmente marcada pela altitude, pela cultura tibetana e pelas paisagens montanhosas.
A chegada da ferrovia a Shangri-La facilitou o acesso ao destino e passou a integrar a cidade a um dos principais circuitos turísticos de Yunnan. Segundo dados oficiais chineses, Diqing recebeu mais de 10 milhões de turistas apenas no primeiro semestre de 2023.
A região também funciona como porta de entrada para áreas de grande importância ecológica e cultural no noroeste da província.
Nem todas as paisagens de Yunnan são formadas por montanhas verdes.
Na região de Shilin, perto de Kunming, encontra-se uma das formações geológicas mais impressionantes da China: a chamada Floresta de Pedra.
Centenas de colunas e torres de calcário se erguem do solo, criando uma paisagem que parece ter sido construída artificialmente.
Floresta de pedra de Shilin, Yunnan (Wikimedia Commons)
Na realidade, trata-se de um exemplo de relevo cárstico, resultado da ação prolongada da água sobre rochas calcárias.
A Floresta de Pedra integra o Patrimônio Mundial do Carste do Sul da China, reconhecido pela UNESCO. A organização considera a área um dos exemplos de referência mundial do chamado carste de pináculos.
A força turística de Yunnan não está apenas em suas paisagens.
A província abriga uma enorme diversidade cultural e étnica. Naxi, Bai, Yi, Hani, Dai, Tibetanos e outros grupos possuem tradições próprias, que aparecem na arquitetura, na culinária, nos festivais, na música, nas roupas e nas formas de ocupação do território.
Essa diversidade é especialmente visível em localidades menores, onde o turismo rural e comunitário passou a ganhar espaço.
Duas mulheres vestidas com trajes Naxi em Yunnan (Foto: Fergus Macdonald, licenciada como CC BY-NC 2.0)
Yunnan também possui uma longa tradição ligada ao cultivo e ao comércio de chá. A paisagem cultural das antigas florestas de chá da montanha Jingmai, em Pu’er, foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2023.
A região ajuda a explicar por que o turismo em Yunnan não se limita ao turismo convencional de grandes cidades e pontos turísticos.
Uma das tendências mais interessantes dos últimos anos é a transformação de Yunnan em destino de longa permanência.
O conceito conhecido na China como lvju — algo próximo de “viver temporariamente em um destino” — ganhou força na província.
Em vez de passar dois ou três dias em uma cidade, visitantes alugam casas, permanecem durante semanas e incorporam atividades cotidianas à viagem.
No primeiro semestre de 2025, Yunnan recebeu cerca de 2,8 milhões de visitantes de longa permanência, crescimento de 45,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. O tempo médio de permanência chegou a 91 dias.
O fenômeno é particularmente importante para cidades menores e comunidades rurais, porque distribui parte do dinheiro do turismo para além de hotéis, restaurantes e grandes atrações.
Em 2025, mais de 5,5 milhões de pessoas participaram desse tipo de estadia prolongada em Yunnan ao longo do ano, segundo dados oficiais da província.
O crescimento do turismo também está relacionado a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento de Yunnan.
A província pretende utilizar sua localização para ampliar as conexões econômicas e culturais com o Sudeste e o Sul da Ásia. Em março de 2025, durante uma visita à região, o presidente chinês Xi Jinping defendeu a expansão das indústrias cultural e turística e destacou o papel de Yunnan como porta de entrada da China para os países vizinhos.
A infraestrutura acompanha esse processo.
O avanço das ferrovias, a expansão das conexões aéreas e o desenvolvimento de corredores de transporte para países como Laos, Vietnã e Mianmar tornam Yunnan mais acessível tanto para turistas chineses quanto estrangeiros.
O turismo, portanto, funciona também como uma ponte entre o interior da China e o Sudeste Asiático.
Yunnan é difícil de resumir em uma única imagem.
É a Lijiang histórica, com seus canais e casas de madeira. É Dali diante do lago Erhai. É Shangri-La nas montanhas. É a Floresta de Pedra de Shilin. São as florestas tropicais de Xishuangbanna e as antigas plantações de chá de Pu’er.
É também uma província de fronteira, marcada por dezenas de povos, antigas rotas comerciais e uma posição estratégica entre a China e o restante da Ásia.
Talvez esteja justamente aí a explicação para o crescimento do turismo.
Em uma China que recebeu mais de 6,5 bilhões de viagens domésticas em 2025, Yunnan oferece uma combinação difícil de reproduzir: grandes paisagens naturais, patrimônio histórico, diversidade cultural e infraestrutura suficiente para transformar uma viagem rápida em uma estadia prolongada.
Mais do que simplesmente visitar Yunnan, uma tendência crescente entre os turistas chineses é experimentar a vida na província. E é essa transformação — de destino para viagem a lugar para permanecer — que pode ajudar a explicar por que milhões de pessoas continuam chegando às montanhas do sudoeste da China todos os anos.
Com informações da UNESCO.
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