O bilionário Elon Musk, dono da rede social X e da SpaceX, voltará a ocupar uma função oficial no governo do presidente Donald Trump. Dessa vez, ele foi nomeado copresidente do “Projeto Meridian”, uma iniciativa do Pentágono para estudar o “futuro da guerra”. O anúncio foi feito na quarta-feira (30) pelo secretário de Defesa Pete Hegseth, na base militar de Quantico, e consolida a reaproximação entre Musk e Trump após um rompimento público em maio de 2025. O retorno ocorre enquanto a SpaceX e a xAI, empresas do bilionário, já mantêm contratos estratégicos com o Pentágono, levantando questões sobre conflito de interesses.
Hegseth enquadrou a iniciativa como uma vantagem competitiva americana: “Estamos aproveitando uma fonte única de vantagem americana, uma que nossos adversários não têm: nossos inovadores, nossas grandes lideranças e nossos tecnólogos.” O objetivo declarado do projeto é “examinar criativamente o futuro e identificar os campos que devemos dominar e as capacidades que devemos aperfeiçoar”. Os integrantes incluirão líderes do setor privado selecionados pessoalmente, além de especialistas da inovação, do meio acadêmico e das políticas públicas. As conclusões devem ser apresentadas em 120 dias.
Em maio de 2025, Musk deixou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) após um desentendimento público de grande repercussão com Trump. O estopim foi a política de gastos do presidente: Musk chegou a chamar um megaprojeto de gastos no centro da agenda doméstica de Trump de “abominação” e alegou que a proposta poderia “levar os EUA à falência”.
A reaproximação, porém, foi gradual e estratégica. Musk retomou doações a causas republicanas, incluindo contribuições multimilionárias a candidatos e grupos políticos conservadores. Voltou a aparecer ao lado de Trump em eventos de alto perfil: um almoço com executivos de inteligência artificial, o jantar de Estado com o presidente chinês Xi Jinping e uma viagem a Pequim no Air Force One. O padrão dessas aparições sugere uma aliança reconstruída menos por convicção ideológica e mais por conveniência mútua, onde os interesses comerciais de Musk e a necessidade de Trump de sinalizar proximidade com o setor tecnológico se retroalimentam.
A SpaceX já está construindo as redes de satélites para o escudo de defesa antimísseis “Golden Dome”, e a xAI assinou acordo para que os militares utilizem o chatbot Grok em sistemas sigilosos, segundo informações do Pentágono. Ou seja, Musk agora irá assessorar estrategicamente o mesmo órgão que contrata suas empresas, definindo quais tecnologias e capacidades os Estados Unidos devem “dominar” nos próximos anos.
A composição do trio que lidera o projeto reforça o problema. Palmer Luckey, cofundador da Anduril Industries, comanda uma empresa cujo modelo de negócios é inteiramente voltado para contratos de defesa em sistemas autônomos avançados, exatamente o tipo de capacidade que o Projeto Meridian deverá recomendar ao Pentágono.
As recomendações do grupo, portanto, podem apontar para tecnologias e serviços que as próprias empresas dos copresidentes já oferecem ou estão desenvolvendo, criando um ciclo em que o assessor e o contratado são a mesma pessoa. Não há, nas informações divulgadas pelo Pentágono, qualquer menção a mecanismos de controle ou salvaguardas éticas para mitigar esse risco.
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