A Organização das Nações Unidas (ONU) deu respaldo internacional à projeção cartográfica Equal Earth, modelo que já vinha sendo usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Assembleia Geral aprovou nesta sexta-feira (4), em Nova York, a resolução “Correct the Map”, que incentiva representações capazes de preservar de forma mais fiel a proporção das áreas dos continentes.
O texto recebeu 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário, dos Estados Unidos. Neste sábado (5), o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, destacou que a decisão dá “nova legitimidade internacional” às experiências cartográficas desenvolvidas pelo instituto brasileiro, que incorporou a Equal Earth a um mapa-múndi lançado em maio.
https://x.com/MarcioPochmann/status/2095963776738623527
A resolução A/80/L.104, da Assembleia Geral das Nações Unidas, tem o título “Correct the Map: rebalancing global cartographic representation and promoting equitable representation of the world’s regions, particularly Africa”. A iniciativa foi apresentada pelo Togo em nome do Grupo Africano e havia recebido apoio da União Africana.
O centro da discussão é a diferença entre a projeção de Mercator, ainda muito presente em mapas escolares e digitais, e projeções de área equivalente, como a Equal Earth. Criada no século 16 para atender especialmente às necessidades da navegação, Mercator preserva ângulos e direções, mas aumenta visualmente territórios quanto mais próximos eles estão dos polos.
O efeito é particularmente evidente na comparação entre África e Groenlândia. Em mapas baseados em Mercator, as duas podem parecer ter dimensões próximas. Na realidade, a África tem uma área cerca de 14 vezes maior.
A Equal Earth, desenvolvida em 2018, parte de outra escolha cartográfica: preservar as áreas relativas das massas de terra. Com isso, continentes e países aparecem em proporções mais próximas de suas dimensões territoriais reais.
O IBGE já havia incorporado essa discussão ao mapa-múndi “Riqueza de Espécies 2025”, apresentado em 4 de maio durante as comemorações dos 90 anos do instituto. Além de usar a Equal Earth, o material coloca o Brasil no centro e apresenta a orientação convencional Norte–Sul invertida, com o Sul na parte superior.
Segundo o próprio IBGE, a projeção Equal Earth representa os continentes em proporções reais e busca oferecer uma visão mais equilibrada da organização do planeta.
A experiência brasileira com outras centralidades cartográficas, porém, começou antes. Em 2024, a Fórum mostrou o lançamento de um mapa-múndi do IBGE que deslocava o Brasil para o centro da representação, em meio à presidência brasileira do G20.
A adoção da Equal Earth acrescentou outra camada a esse movimento. Não se tratava mais apenas de questionar quem aparece no centro da imagem, mas também de alterar a própria proporção com que os territórios são visualizados.
Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a resolução aprovada pela Assembleia Geral. Outros seis se abstiveram. A votação deixou Washington isolado diante de uma proposta conduzida por países africanos e apoiada por ampla maioria dos integrantes da ONU.
A ofensiva pela revisão dos mapas ganhou força a partir da campanha “Correct the Map”, que questiona o uso da projeção de Mercator como representação padrão do mundo em situações nas quais a proporção territorial é relevante. O argumento é que a distorção amplia visualmente áreas do Norte Global e reduz o peso aparente de regiões próximas à linha do Equador, principalmente a África.
A votação da ONU, no entanto, não significa que o modelo completo apresentado pelo IBGE tenha se tornado um novo padrão internacional. A resolução se concentra no estímulo às projeções de área equivalente, como a Equal Earth.
A centralização do Brasil e a inversão entre Norte e Sul são escolhas adicionais do instituto brasileiro. O próprio Pochmann ressalta que essas decisões têm caráter crítico e pedagógico, ao mostrar que a organização visual de um mapa não corresponde a uma ordem natural e inevitável.
Da mesma forma, a decisão da Assembleia Geral não proíbe a projeção de Mercator nem cria obrigação jurídica para que todos os países mudem seus mapas. Mercator continua especialmente útil na navegação, finalidade para a qual foi concebida.
O peso da resolução é sobretudo institucional e político. Ao estimular mapas que preservem melhor a dimensão relativa dos territórios, a ONU dá força a uma discussão sobre cartografia, colonialismo e representação que vinha sendo conduzida por países africanos e que, no Brasil, já havia chegado à produção oficial do IBGE.
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