Doutrina Monroe: EUA retomam política de submissão nas Américas em meio a tensões com China e Brasil

Doutrina Monroe: EUA retomam política de submissão nas Américas em meio a tensões com China e Brasil

  • 12 de agosto de 2026
  • Mundo
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O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou nesta terça-feira (11/08) um vídeo de mais de cinco minutos na rede social X reafirmando a Doutrina Monroe e declarando que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”. Na prática, Donald Trump manda um recado para que as lideranças da região sejam submissas, como acontece com Javir Milei na Argentina e como Flávio Bolsonaro quer deixar o Brasil.

A publicação, narrada pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Marino Cabrera, traça um histórico da doutrina desde 1823 e a conecta diretamente à política externa do governo Donald Trump, num momento em que Washington acumula atritos com Brasília e disputa influência na região com Pequim.

EUA reafirmam Doutrina Monroe e ‘domínio’ nas Américas

O vídeo publicado pelo Departamento de Estado não deixa margem para interpretação: “A Doutrina Monroe moldou a política externa dos EUA por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, diz a legenda da postagem oficial na conta @StateDept. A gravação percorre mais de duzentos anos de história para chegar a uma conclusão presente: o Hemisfério Ocidental é, na visão de Washington, área de primazia inquestionável dos Estados Unidos.

A declaração não é um gesto isolado. Ela ocorre num contexto de tensões diplomáticas e comerciais em escalada entre Washington e países da América Latina, incluindo o Brasil, parceiro histórico hoje em rota de colisão com a administração Trump. A escolha do momento e do formato, um vídeo institucional distribuído em rede social, sinaliza que a mensagem é tanto para governos da região quanto para a opinião pública global.

A Doutrina Monroe e sua aplicação histórica e recente

Criada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina nasceu como um aviso às potências europeias: o continente americano estava fora dos limites para novas colonizações ou interferências políticas. Em contrapartida, os EUA se comprometiam a não intervir nos assuntos internos da Europa. O princípio funcionou, à época, mais como advertência diplomática do que como imposição militar. Com o crescimento do poder norte-americano ao longo do século 19, porém, a doutrina foi progressivamente reinterpretada como reivindicação de primazia sobre todo o hemisfério.

O vídeo do Departamento de Estado seleciona episódios específicos para ilustrar essa trajetória. Cita a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando o presidente John F. Kennedy invocou a doutrina diante da descoberta de mísseis soviéticos na ilha, e a atuação do governo Ronald Reagan contra grupos latino-americanos apoiados pela União Soviética. Como exemplo contemporâneo, destaca a captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, durante a Operação Absolute Resolve, descrita no vídeo como um “forte sinal a todo o hemisfério”. O que o Departamento de Estado omite é igualmente revelador: o histórico apresentado não menciona as intervenções norte-americanas que contribuíram para a instalação de regimes ditatoriais na América Latina ao longo do século 20, episódios amplamente documentados e centrais para qualquer leitura honesta da doutrina.

Contexto de tensões: China, Brasil e a ‘Doutrina Donroe’

A publicação do vídeo não foi coincidência de calendário. Ela veio um dia depois de a China solicitar participação nas consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Pequim afirmou ter “interesse comercial substancial” na disputa. O Brasil havia protocolado o pedido de consultas na OMC em 27 de julho. A sequência de eventos compõe um quadro em que Washington vê sua influência econômica e política na região sendo disputada em múltiplas frentes.

A relação entre Brasília e Washington atravessa um dos períodos de maior desgaste em décadas. As divergências acumulam camadas políticas, judiciais e comerciais, e incluem a revogação, pelos EUA, do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida ocorreu enquanto o governo brasileiro ainda não havia aprovado a indicação de Daniel Perez, aliado do secretário de Estado Marco Rubio, para o posto de embaixador americano no Brasil. Autoridades norte-americanas acusam Brasília de adotar medidas contra grupos conservadores; o governo brasileiro rejeita o que considera ingerência interna.

Em maio aos ataques, Rubio e Donald Trump buscam interferir diretamente nas eleições presidenciais brasileiras. A ação ganhou força após Flávio Bolsonaro apresentar uma carta e ter uma reunião reservada na Casa Branca se comprometendo a submeter o Brasil aos anseios dos EUA.

É nesse cenário que ganha sentido o apelido cunhado pelo jornal The New York Times para a política de Trump na região: “Doutrina Donroe”, combinação dos nomes Donald e Monroe. Em dezembro do ano passado, o governo Trump divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional, que afirma explicitamente a intenção de “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”. A doutrina, portanto, não é apenas referência histórica no discurso de Trump: é diretriz de governo formalizada em documento oficial.

Implicações para a autonomia latino-americana

Ao formalizar a Doutrina Monroe como “pedra angular” de sua política externa, o governo norte-americano sinaliza que qualquer aproximação de países latino-americanos com potências externas ao hemisfério, China e Rússia em especial, será lida como ameaça a ser contida. Para nações que buscam diversificar parcerias internacionais e construir políticas externas autônomas, a declaração funciona como pressão antecipada.

A “Doutrina Donroe” detalha os instrumentos dessa pressão. O documento de segurança nacional prevê ampliar a presença da Guarda Costeira e da Marinha norte-americanas para controlar rotas marítimas, reforçar a proteção de fronteiras com uso de força letal contra cartéis em determinadas situações, e estabelecer ou ampliar o acesso dos EUA a locais estratégicos na região. Traduzido para o cotidiano diplomático, o plano representa potencial de ingerência direta sobre decisões soberanas de governos latino-americanos, especialmente aqueles que não se alinham à agenda de Washington.

A narrativa do Departamento de Estado apaga, deliberadamente, a resistência histórica que a doutrina sempre encontrou na América Latina. Movimentos sociais, governos progressistas e intelectuais da região construíram, ao longo de décadas, uma tradição de contestação à tutela norte-americana, da Revolução Cubana às experiências de integração regional como a Unasul e a CELAC. Essa resistência não aparece no vídeo institucional, o que é, em si, uma escolha política. Reconhecê-la é condição para entender que a declaração de “domínio inquestionável” não descreve uma realidade consolidada: enuncia uma disputa em aberto.

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