
Um filme sobre um filme (dentro de um filme). Essa é a premissa metalinguística de Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte, novo terror slasher com uma (grande) pitada de humor de Jane Schoenbrun (Eu Vi o Brilho da TV). Em seu terceiro longa-metragem, Schoenbrun entrelaça o horror, a comédia e o prazer com excelência, culminando em um dos filmes mais inovadores do gênero nos últimos tempos.
O longa acompanha Kris (Hannah Einbinder, Hacks), diretora LGBTQ+ que é encarregada de reviver uma franquia fictícia, “Acampamento Miasma”, com um novo olhar. O filme original (que ganhou diversas sequências cada vez mais fracassadas) é criticado por contemplar, como vilão, um personagem que vive metade dos seus dias como homem, metade como mulher. As grandes produtoras querem trazer a história de origem de Little Death (Jack Haven, Atypical) com um olhar mais contemporâneo e menos problemático — não exatamente porque a sociedade evoluiu tanto assim, mas, como Kris justifica, porque a “lacração” agora vende mais nas bilheterias.
Para encontrar a abordagem ideal para seu filme, Kris vai atrás de Billy Preston (Gillian Anderson, Sex Education), atriz que interpretou a “final girl” do primeiro filme. Após fazer sucesso como a protagonista, Billy se afastou dos holofotes e passou a viver em uma casa isolada, no mesmo acampamento abandonado onde o longa fictício foi gravado. Agora, perto dos 60 anos, Billy resolve finalmente se envolver com a produção de uma nova entrada da franquia — mas não exatamente da forma convencional. Billy acredita (ou faz Kris acreditar) que os filmes só poderiam ser produzidos ao, de certa forma, vivê-los.
A relação de Kris e Billy escala, ao longo da obra, de formas inimagináveis. A tensão sexual entre as personagens é palpável desde a primeira cena: o que não se espera é que elas irão viver um caos psicológico ao longo do segundo e terceiro atos do filme.
Com um estilo um pouco semelhante ao de David Lynch (Cidade dos Sonhos), apostando em cores fortes e atmosfera onírica, Schoenbrun constrói uma narrativa que embaça as linhas entre imaginação e realidade. O objetivo não é que o espectador encontre onde está essa divisão, mas embarque em uma jornada de autodescoberta e se entregue à fantasia junto com as personagens.
Ao mesmo tempo em que assistimos ao filme na tela do cinema, também assistimos ao “longa original” da “franquia Miasma”. Ele é ambientado em um acampamento de verão dos anos 1980, cheio de adolescentes com os hormônios à flor da pele — e, é claro, um assassino letal à solta. (Zach Cherry, de Ruptura, e Eva Victor, de Sorry, Baby, estão entre os integrantes do acampamento e vítimas inevitáveis de Little Death.)
A linha tênue entre realidade e ficção pode ser um tema batido e muito explorado em diversos gêneros do cinema, mas a abordagem aqui é completamente inovadora. Mesclando a estética de ilustração com elementos nostálgicos e uma ótima trilha sonora, Schoenbrun imerge o público no universo dessa franquia fictícia desde a cena de abertura. Ao longo de duas horas, quase conseguimos acreditar que essa é uma história já querida por todos.
E o que não faltam são referências ao gênero slasher, como Sexta Feira 13 (1980) e O Massacre da Serra Elétrica (1974). Desde o grupo de amigos numa van que dirige até um acampamento isolado até, é claro, a misoginia presente em muitos dos clássicos mais amados.
Os comentários afiados sobre a indústria cinematográfica são um dos pontos altos de Acampamento Miasma. O ode à dimensão erótica do slasher também está presente, com uma releitura dos limites desse prazer à sua época. E, como o título original diz, é muito, muito camp.
Cineasta queer e não-binária, Schoenbrun utiliza o cinema como ferramenta para questionar as normas de gênero da sociedade — e não é diferente em Acampamento Miasma —, mas constrói tal discurso com a sutileza necessária ao cinema. O absurdismo, o surrealismo e a artisticidade aqui presentes são a marca de sua autoria.
Essas linguagens já eram comuns ao seu trabalho anterior, como Eu Vi o Brilho da TV (2024) e Vamos Todos à Exposição Mundial (2021). Em Acampamento Miasma, porém, Schoenbrun se afasta do universo melancólico que construiu nesses filmes e encontra um tom fenomenal de comédia, tornando a experiência do espectador, além de introspectiva, muito divertida.
Através de personagens femininas complexas e muita auto ironia, Schoenbrun entrega um retrato sensível sobre a liberdade e o prazer. Além de todo o horror que o circunda, Acampamento Miasma também é um filme para todas as pessoas que não se sentem confortáveis em sua própria pele, e um convite à tentativa de se encontrar sem pedir desculpas.
O filme se inicia com um andamento mais lento, e pode demorar um pouco até que o espectador se conecte com a história. Mas, aos poucos, as peças vão se encaixando. O caos, o impulso, a culpa e o pecado se encontram; como o título diz, “Sexo e Morte” são vivências universais que definem todo e qualquer ser humano. Acampamento Miasma é uma fuga completa à fórmula comercial dos filmes de terror, e a coragem necessária para executá-lo até o fim é o seu maior triunfo.
As atuações fantásticas de Anderson e Einbinder (todo o humor que ela elaborou na série queridinha da HBO Max Hacks está presente aqui) amarram a narrativa. Ambas navegam pelas facetas de suas personagens, desde as mais engraçadas até seus dilemas sexuais e emocionais mais profundos, e elevam a química física e mental a outro patamar. A magia na direção de Schoenbrun e a total confiança das atrizes no processo garante uma experiência realmente imersiva ao espectador.
“A nossa relação cultural com o sexo é tão pouco saudável. Por isso, é claro que tentamos compartimentalizá-lo ou mantê-lo restrito à uma ‘janela’, sem nunca compartilhá-lo com outro ser humano. Não acho que isso nos faça bem enquanto sociedade”, disse Einbinder em entrevista ao Letterboxd. “Acredito que a repressão é a inimiga — especialmente a do artista —, e este é um filme contra a repressão”.
Após diversos lançamentos repetitivos no slasher, Acampamento Miasma é um verdadeiro refresco, e uma prova de que é possível inovar o gênero com ousadia e ainda respeitar a memória dos clássicos que o construíram. É um filme extremamente pessoal, brincalhão, mas também poético. Se você conseguir se entregar aos prazeres e aos horrores de Acampamento Miasma (como diz Billy, o horror sempre foi sobre “carne e fluidos”), poderá também encontrar essa magia eufórica.
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O post ‘Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte’ é uma carta de amor ao terror slasher apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
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