Um bombardeio russo massivo atingiu Kiev na madrugada desta quarta-feira (5), deixando ao menos 17 mortos e mais de 50 feridos. A Rússia lançou 28 mísseis balísticos e hipersônicos e 115 drones contra a capital ucraniana, segundo o Ministério da Defesa do país, destruindo instalações comerciais, logísticas e uma estação ferroviária. Nenhum dos mísseis foi interceptado pela defesa aérea ucraniana, o que levou o presidente Volodymyr Zelensky a renovar o apelo por sistemas antibalísticos aos aliados ocidentais, em meio a uma guerra que já dura quatro anos e meio sem perspectiva de encerramento.
O bombardeio começou pouco depois da meia-noite pelo horário local, com dez fortes explosões registradas em sequência. Segundo a Força Aérea ucraniana, 28 mísseis balísticos e hipersônicos e 115 drones foram lançados contra a capital. A maioria dos drones foi interceptada, mas nenhum míssil foi abatido, chegando rápido demais para as defesas disponíveis.
As autoridades ucranianas identificaram danos em mais de sete pontos da cidade, nos bairros de Golosiivsky, Desniansky, Obolonsky e Sviatoshynsky. Entre os alvos atingidos estão o shopping Epitsentr, especializado em produtos de construção e apontado como o maior da cidade no setor, um centro de distribuição da varejista digital Rozeska, depósitos da transportadora NP e da rede de supermercados Novus. Uma estação ferroviária também foi atingida. Em um dos bairros afetados, houve alerta por vazamento de amônia em uma fábrica, sem consequências registradas.
Equipes de resgate ainda buscavam pessoas sob os escombros horas depois do ataque, segundo o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko. Moradores de Boryspil e Bucha, cidades na periferia da capital, também receberam assistência na manhã desta quarta. “A noite passada foi simplesmente horrível. A casa tremia. Eu só quero deixar Kiev o mais rápido possível para que esse horror acabe”, relatou Tetiana Dremak, moradora da capital.
Zelensky classificou o ataque como “pesado” e acusou a Rússia de mirar deliberadamente em infraestrutura civil. “Os principais alvos da ofensiva foram instalações de armazenamento pertencentes a empresas civis. Essas instalações não tinham relação com a guerra: uma cervejaria, armazéns de materiais de construção e centros logísticos civis”, afirmou o presidente ucraniano nas redes sociais.
“Interceptadores de mísseis balísticos poderiam ter salvado vidas hoje.”
O apelo de Zelensky aos aliados foi direto: sem sistemas antibalísticos, a Ucrânia não tem como deter esse tipo de armamento. O presidente afirmou ser “essencial” que os parceiros ocidentais “entendam que atrasos na entrega ou a relutância em fornecer sistemas antibalísticos levam exatamente a esse tipo de perda humana”.
Moscou apresentou uma versão oposta. O Ministério da Defesa russo afirmou ter atingido sete centros de logística em Kiev e arredores, além de três navios de carga no Mar Negro, alegando que as instalações destruídas eram utilizadas para armazenar e distribuir componentes de drones de ataque. A verificação independente das alegações de ambos os lados permanece uma lacuna nesta cobertura, como é recorrente em contextos de guerra de narrativas.
O bombardeio desta quarta não é um episódio isolado. Nesta semana, um drone ucraniano recém-abatido caiu sobre uma praia lotada no Mar Negro e matou sete russos. Moscou respondeu com um ataque de drone contra um feirante, cujas imagens circularam amplamente. A Ucrânia, por sua vez, tem intensificado ataques contra alvos em território russo, incluindo refinarias de petróleo e ao menos 20 armazéns da Wildberries, maior varejista digital do país, o que tem irritado o Kremlin e pressionado a economia russa.
No plano diplomático, o cenário é de impasse. O episódio ocorre um dia depois de Zelensky declarar que trabalha para encerrar o conflito até dezembro, com o início do inverno no Hemisfério Norte. As negociações, porém, seguem paralisadas desde que a mediação dos Estados Unidos, conduzida por Donald Trump, foi interrompida em razão da guerra no Irã. A data exata da interrupção e seus desdobramentos diretos sobre as tratativas com Kiev ainda dependem de apuração adicional.
Segundo o Financial Times, Trump teria recusado um pedido de Zelensky por centenas de baterias do sistema antimísseis Patriot durante um encontro na Casa Branca na semana passada. A data exata do encontro e a confirmação da recusa por outras fontes ainda não foram verificadas de forma independente. Se confirmada, a negativa torna ainda mais concreta a equação que Zelensky tenta expor: cada ataque como o desta madrugada tem um custo em vidas que decisões políticas distantes, tomadas em Washington, ajudam a determinar.
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