O dia 1º de outubro ocupa um lugar singular na história contemporânea da China. A data marca a fundação da República Popular da China (RPC), proclamada por Mao Zedong em Beijing em 1949, depois de décadas de guerras, invasões estrangeiras, fragmentação política e revolução. Desde 1950, o dia é oficialmente celebrado como o Dia Nacional da China.
Mais do que a comemoração da criação de um novo Estado, o 1º de outubro representa uma ruptura com a chamada “velha China” e o início de uma nova etapa de construção nacional.
É também uma data inseparável da trajetória do Partido Comunista da China (PCCh), que liderou a revolução que culminou na fundação da República Popular.
A importância política e simbólica da data está justamente na combinação entre revolução, soberania nacional, transformação social e construção de Estado.
Para compreender o significado de 1 de outubro 1949, é necessário voltar ao século XIX. A China havia sido durante séculos um dos grandes centros políticos, econômicos e culturais do mundo. A partir das Guerras do Ópio, porém, o país sofreu sucessivas derrotas diante das potências estrangeiras e foi submetido a uma série de tratados desiguais, concessões territoriais e privilégios concedidos a estrangeiros.
O enfraquecimento da dinastia Qing culminou na Revolução de 1911, liderada por Sun Yat-sen, que derrubou a monarquia imperial e estabeleceu a República da China.
A revolução, entretanto, não resolveu os principais problemas de fragmentação política, pobreza, desigualdade e interferência estrangeira.
O período seguinte foi marcado por disputas entre diferentes forças políticas e militares, pelo domínio dos chamados senhores da guerra, pela guerra civil entre o Kuomintang (KMT) e o PCCh e, a partir de 1937, pela invasão japonesa em larga escala.
Foi nesse ambiente que o Partido Comunista da China, fundado em 1921, ampliou sua influência entre trabalhadores e camponeses e construiu uma organização política e militar capaz de sobreviver a sucessivas campanhas de repressão.
Entre 1921 e 1949, foram 28 anos de revolução, período marcado pela luta contra o imperialismo, a resistência à invasão japonesa e a guerra civil que terminou com a vitória comunista.
É impossível compreender o significado do 1 de outubro sem compreender o papel atribuído ao PCCh na formação da República Popular.
O Partido não surgiu originalmente como uma organização destinada simplesmente a administrar um Estado. Durante décadas, funcionou como uma força revolucionária que procurava transformar simultaneamente as estruturas políticas, econômicas e sociais chinesas.
A estratégia desenvolvida pelos comunistas chineses também se diferenciou da experiência revolucionária europeia clássica. Mao e outros dirigentes do PCCh deram enorme importância ao campesinato, à organização territorial, à guerra de guerrilhas e à construção de estruturas políticas nas áreas sob controle comunista.
Shen Jilan, delagada da Assembleia Nacional do Povo entre 1954 e 2020, no Dia Nacional da China de 1954 (Foto: Domínio Público)
Durante a guerra contra o Japão, o Partido ampliou ainda mais sua capacidade de organização. Ao final da Segunda Guerra Mundial, o conflito entre comunistas e nacionalistas foi retomado. Entre 1948 e 1949, o Exército Popular de Libertação conquistou importantes vitórias militares contra as forças do Kuomintang.
Em 1 de outubro de 1949, diante de uma multidão na Praça Tian’anmen, Mao Zedong anunciou a criação da República Popular da China. Às 15 horas, foi proclamada a fundação do novo governo central. Houve posteriormente desfile militar e manifestações populares.
A cena tornou-se um dos principais símbolos da história chinesa no século XX.
A expressão “refundação da China” ajuda a entender por que a data possui um peso tão grande no imaginário político chinês.
O 1 de outubro de 1949 não representou apenas a substituição de um governo por outro. Representou a reconstrução do Estado chinês a partir de uma revolução que pretendia encerrar um período de submissão externa e fragmentação interna.
A fundação da República Popular encerrou a condição de sociedade “semicolônial e semifeudal”, a desunião política e os privilégios desfrutados pelas potências imperialistas na China.
Essa interpretação está diretamente relacionada ao conceito de “século de humilhação”, utilizado na historiografia e no discurso político chinês para descrever aproximadamente o período entre as Guerras do Ópio e a vitória revolucionária de 1949.
Nesse sentido, soberania nacional e revolução social aparecem como processos inseparáveis. O objetivo declarado não era apenas recuperar a independência formal do país, mas construir um Estado capaz de controlar seu território, organizar sua economia e impedir que potências estrangeiras determinassem os rumos da China.
A fundação da República Popular também foi acompanhada pela criação de novas instituições.
Antes mesmo da proclamação, a primeira sessão plenária da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, realizada entre 21 e 30 de setembro de 1949, aprovou o Programa Comum, a Lei Orgânica da Conferência e a Lei Orgânica do Governo Popular Central. Também definiu Beijing como capital, adotou a bandeira de cinco estrelas e estabeleceu a Marcha dos Voluntários como hino provisório.
O Programa Comum estabeleceu as bases do novo sistema político. Em 1954, a China adotaria sua primeira Constituição.
Nos anos seguintes, o PCCh conduziu uma profunda transformação econômica e social. Entre 1953 e 1956 ocorreu a transformação socialista da agricultura, do artesanato e de grande parte da indústria e do comércio privados. Em 1956, a direção chinesa declarou concluída a transformação socialista da propriedade dos meios de produção.
Ao mesmo tempo, a experiência das primeiras décadas da RPC foi marcada por campanhas políticas e econômicas de enorme impacto, incluindo o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, além de erros graves e crises que posteriormente seriam reconhecidos pela própria liderança chinesa.
Por isso, a importância histórica de 1949 não depende de apresentar as décadas seguintes como uma trajetória linear ou sem contradições. A fundação da RPC abriu um processo histórico que passou por diferentes fases, políticas econômicas e disputas internas.
Outro motivo para o peso do 1 de outubro é que a fundação da RPC constitui o ponto de partida da trajetória que levou à China contemporânea.
Depois da morte de Mao, em 1976, e da ascensão de Deng Xiaoping, a partir do final dos anos 1970, o país iniciou a política de Reforma e Abertura.
A economia chinesa passou progressivamente a combinar planejamento estatal e mecanismos de mercado, enquanto o país ampliava sua integração ao comércio internacional.
A liderança do PCCh permaneceu, entretanto, como elemento central do sistema político. A própria formulação oficial das reformas apresenta uma continuidade entre 1949 e o período posterior: primeiro, a conquista da soberania e a construção das instituições do novo Estado; depois, a modernização econômica e a abertura; posteriormente, a busca pela construção de uma sociedade socialista modernizada.
Essa continuidade ajuda a explicar por que o 1 de outubro permanece tão importante mesmo para as gerações nascidas décadas depois da revolução.
O Dia Nacional da China reúne três elementos que, na concepção política da RPC, estão profundamente associados: o Estado, o povo e o Partido Comunista da China.
A data é culminação do processo histórico conduzido pelo PCCh que recuperou a soberania nacional, criou um novo Estado e iniciou uma transformação social de longo prazo.
A bandeira hasteada em Tian’anmen em 1949 não simbolizava somente a chegada de uma nova administração. Ela representou passagem para uma nova etapa da história da civilização chinesa, que existe há 5 mil anos.
Mais de sete décadas depois, o significado do 1 de outubro permanece ligado à ideia de rejuvenescimento nacional.
A China atual é muito diferente daquela que existia em 1949. É uma potência industrial, tecnológica, comercial e militar integrada à economia mundial. A sociedade também passou por transformações profundas.
Por isso, durante as celebrações do Dia Nacional, a memória da fundação da RPC costuma aparecer associada a outras etapas da história contemporânea chinesa: a fundação do PCCh em 1921, a vitória na guerra de resistência contra o Japão, a revolução de 1949, a construção socialista, as reformas e abertura e, mais recentemente, a chamada revitalização da nação chinesa.
O 1 de outubro funciona, assim, como uma espécie de marco zero da China contemporânea. É nesse sentido que o Dia Nacional da República Popular da China é, ao mesmo tempo, uma celebração da fundação de um Estado e da revolução que tornou possível sua existência.
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