Guangdong: a província chinesa que combina megacidades, indústria, turismo e uma história ligada ao Brasil

Guangdong: a província chinesa que combina megacidades, indústria, turismo e uma história ligada ao Brasil

  • 11 de setembro de 2026
  • Mundo
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Ao sul da China, diante do Mar do Sul da China e junto a Hong Kong e Macau, Guangdong reúne algumas das características que melhor ajudam a compreender a transformação econômica e social do país nas últimas décadas. A província abriga cidades como Guangzhou, Shenzhen, Zhuhai e Foshan, concentra uma das maiores áreas industriais e tecnológicas do mundo e, ao mesmo tempo, preserva montanhas, aldeias históricas, templos, cidades antigas e paisagens costeiras.

Com 128,59 milhões de habitantes no fim de 2025, Guangdong é a província mais populosa da China continental. No mesmo ano, seu Produto Interno Bruto (PIB) chegou a 14,58 trilhões de yuans, mantendo a liderança nacional pelo 37º ano consecutivo. A economia provincial cresceu 3,9% em relação a 2024.

A importância de Guangdong, entretanto, não se limita aos números. A região foi durante séculos uma das principais portas da China para o comércio marítimo internacional. Foi também de cidades e aldeias da província, especialmente da região do Delta do Rio das Pérolas, que partiram sucessivas ondas de emigrantes chineses para diferentes partes do mundo.

Essa história tem uma conexão particularmente importante com o Brasil. A imigração chinesa para o país contou com uma expressiva participação de pessoas originárias de Guangdong, incluindo comunidades cantonesas que se estabeleceram no Rio de Janeiro, em São Paulo e posteriormente em outras cidades brasileiras.

Onde fica Guangdong?

Guangdong está localizada no extremo sul da China continental. A província faz fronteira terrestre com Guangxi, Hunan, Jiangxi e Fujian e possui uma extensa costa voltada para o Mar do Sul da China.

Ao sul e sudoeste estão Hong Kong e Macau, enquanto o Delta do Rio das Pérolas conecta algumas das áreas urbanas mais densas e economicamente dinâmicas da Ásia.

O território é marcado por uma combinação de planícies costeiras, rios, áreas montanhosas e uma longa faixa litorânea. O clima subtropical, com temperaturas elevadas durante boa parte do ano e uma estação de chuvas marcada pelas monções, contribuiu historicamente para uma agricultura diversificada e também para o desenvolvimento de uma cultura gastronômica própria.

O principal eixo urbano da província está associado ao Delta do Rio das Pérolas. Guangzhou, Shenzhen, Dongguan, Foshan, Zhuhai e outras cidades formam uma enorme área metropolitana e industrial integrada, conectada por ferrovias de alta velocidade, metrôs, rodovias, aeroportos e portos.

Guangzhou: a capital histórica de Guangdong

Guangzhou Twin Towers

Guangzhou (Foto: Wikimedia Commons)

Guangzhou, conhecida historicamente no Ocidente como Cantão, é a capital provincial e uma das cidades mais antigas da China.

Sua história urbana remonta a mais de 2.200 anos. O governo municipal registra a fundação da cidade de Panyu durante a conquista da região de Lingnan pela dinastia Qin, em 214 a.C.

Durante séculos, Guangzhou desempenhou um papel central no comércio marítimo chinês. A localização às margens do Rio das Pérolas permitiu que a cidade se tornasse uma ligação entre o interior da China e as rotas comerciais do Sudeste Asiático, do Oceano Índico e, posteriormente, da Europa.

O visitante encontra na cidade uma combinação entre patrimônio histórico e uma das maiores metrópoles contemporâneas da China. Entre os pontos de interesse estão o Museu do Mausoléu do Rei de Nanyue, o Templo dos Seis Banianos, o Templo Guangxiao, a Mesquita Huaisheng, a Academia do Clã Chen e a região histórica de Xiguan.

Outro símbolo da cidade é a Torre de Cantão, um dos marcos da paisagem urbana contemporânea de Guangzhou. À noite, a margem do Rio das Pérolas oferece uma das vistas mais conhecidas da cidade, com a torre e os arranha-céus iluminados.

O patrimônio de Guangzhou também está ligado à história do comércio marítimo. O governo municipal identifica o Templo Nanhai Shen, cuja história atravessa diferentes dinastias, como um importante testemunho da antiga Rota Marítima da Seda.

Shenzhen: de cidade fronteiriça a potência tecnológica

Shenzhen

Shenzhen (Foto: Wikimedia Commons)

Se Guangzhou representa a longa história comercial de Guangdong, Shenzhen simboliza a transformação econômica da China contemporânea.

A cidade começou sua transformação decisiva no fim da década de 1970. Em março de 1979, Shenzhen foi estabelecida como cidade e, em agosto de 1980, tornou-se uma das primeiras Zonas Econômicas Especiais da China.

A localização imediatamente ao norte de Hong Kong foi fundamental para o processo. A Zona Econômica Especial permitiu a criação de mecanismos destinados a atrair investimentos, tecnologia, comércio exterior e empresas internacionais. A partir daí, Shenzhen passou de uma pequena cidade fronteiriça a uma das maiores metrópoles chinesas.

Hoje, a cidade é particularmente associada à tecnologia, eletrônica, telecomunicações, veículos elétricos, inteligência artificial, equipamentos industriais e inovação.

Para turistas, Shenzhen oferece uma experiência diferente de Guangzhou. A cidade possui parques urbanos, áreas costeiras, centros comerciais e bairros tecnológicos. Huaqiangbei, por exemplo, tornou-se conhecido internacionalmente por seu enorme mercado de componentes eletrônicos e produtos tecnológicos.

A própria prefeitura de Shenzhen destaca a existência de mais de 100 atrações, incluindo parques temáticos, áreas ecológicas, centros comerciais, resorts e locais históricos.

Foshan, Dongguan e Zhuhai: outras cidades importantes

Foshan é uma das cidades mais importantes do interior do Delta do Rio das Pérolas. A cidade possui longa tradição industrial e artesanal e é particularmente conhecida por sua produção de cerâmica, metalurgia e equipamentos industriais. Foshan também ocupa lugar importante na cultura das artes marciais chinesas e está associada à tradição do Wing Chun.

Dongguan, por sua vez, tornou-se um dos grandes centros industriais do Delta do Rio das Pérolas. A cidade foi durante décadas uma das principais bases da chamada “fábrica do mundo”, concentrando cadeias produtivas ligadas à eletrônica, equipamentos, brinquedos, móveis e diversos outros produtos manufaturados.

Zhuhai está localizada na costa, diante de Macau. Seu território combina áreas urbanas modernas, litoral e turismo. A cidade ganhou ainda maior importância regional com a construção da infraestrutura que conecta Hong Kong, Zhuhai e Macau através do estuário do Rio das Pérolas.

Além dessas cidades, Guangdong possui centros históricos como Chaozhou e Shantou, no leste da província. Chaozhou é especialmente conhecida por sua arquitetura tradicional, culinária e cultura regional, enquanto Shantou possui uma longa história de comércio marítimo e migração.

O que visitar em Guangdong?

Guangdong não é apenas um destino para quem deseja conhecer as grandes cidades chinesas. A província possui uma combinação particularmente ampla de patrimônio cultural, natureza e litoral.

Guangzhou

Na capital, vale reservar alguns dias para conhecer o centro histórico, os templos, os museus e as margens do Rio das Pérolas. A cidade também é um dos principais destinos gastronômicos da China e um dos lugares mais importantes para experimentar a culinária cantonesa.

Kaiping e os diaolou

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Diaolou (Foto: Wikimedia Commons)

Um dos destinos mais interessantes de Guangdong para compreender a história das migrações chinesas é Kaiping, cidade localizada a oeste do Delta do Rio das Pérolas.

A região é conhecida pelos diaolou, torres fortificadas construídas principalmente entre o século XIX e o início do século XX. Esses edifícios combinam técnicas e elementos arquitetônicos chineses com influências ocidentais.

O conjunto de Kaiping foi inscrito pela UNESCO na Lista do Patrimônio Mundial em 2007. A organização destaca que as construções refletem a influência dos emigrantes de Kaiping que retornavam à região depois de viver em diferentes partes da Ásia, da Australásia e da América do Norte.

São especialmente conhecidos os conjuntos de Sanmenli, Zili, Majianglong e Jinjiangli. As torres não são apenas monumentos arquitetônicos: elas contam a história de comunidades rurais que participaram das grandes redes migratórias chinesas dos séculos XIX e XX.

Montanha Danxia

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Grandes montanhas no norte (Foto: Wikimedia Commons)

No norte de Guangdong, próximo a Shaoguan, está a área de Danxiashan, famosa pelas formações rochosas avermelhadas que deram origem ao termo geológico “Danxia”.

Danxiashan integra o patrimônio natural China Danxia, inscrito pela UNESCO em 2010. O conjunto é formado por seis áreas distribuídas por diferentes províncias chinesas, caracterizadas por falésias, pilares, cânions, vales e outras formações produzidas pela erosão de rochas sedimentares avermelhadas.

É uma das principais opções de Guangdong para quem deseja combinar trilhas, paisagens naturais e turismo geológico.

Chaozhou

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Chaozhou (Foto: Wikimedia Commons)

Chaozhou é uma das melhores opções para conhecer uma face mais tradicional da cultura de Guangdong. A cidade preserva construções históricas, ruas antigas, templos e tradições culinárias próprias.

A culinária de Chaozhou, conhecida como Chaoshan, possui características diferentes da cozinha cantonesa de Guangzhou. A região é conhecida por técnicas de preparo que valorizam ingredientes frescos, caldos, frutos do mar e pratos servidos em pequenas porções.

Shenzhen e o litoral

Shenzhen é indicada para quem prefere uma viagem urbana, com arquitetura contemporânea, compras, tecnologia, gastronomia e praias. A cidade possui também diversos parques e áreas verdes, o que contrasta com sua imagem de metrópole tecnológica.

A economia de Guangdong

A dimensão econômica de Guangdong ajuda a explicar sua importância dentro da China. Em 2025, a província registrou PIB de 14,584 trilhões de yuans, crescimento de 3,9% e população residente de 128,59 milhões. O setor terciário respondeu por 8,496 trilhões de yuans, enquanto o setor secundário somou 5,499 trilhões.

A estrutura econômica combina indústria manufatureira, comércio exterior, serviços financeiros, tecnologia, logística e consumo doméstico.

O setor industrial continua sendo especialmente importante. Em 2025, o valor agregado da indústria acima do porte designado cresceu 3%. A fabricação de computadores, equipamentos de comunicação e outros equipamentos eletrônicos cresceu 7,1%; a fabricação de equipamentos elétricos e máquinas cresceu 4%; a indústria automobilística avançou 10,1%; e a fabricação de equipamentos especializados cresceu 7,6%.

Os números também mostram a transição de Guangdong para atividades tecnológicas de maior valor agregado. A produção de robôs industriais cresceu 31,2% em 2025, a de drones civis 39%, a de servidores 28,2% e a de equipamentos de impressão 3D 49,6%.

Também houve forte expansão de produtos ligados à transição energética. A produção de equipamentos para geração eólica cresceu 55%, baterias de íons de lítio para armazenamento de energia avançaram 31,3% e células solares cresceram 51%.

De onde vem a força industrial de Guangdong?

A resposta passa principalmente pela formação do Delta do Rio das Pérolas como uma gigantesca plataforma industrial e logística.

A proximidade de Hong Kong e Macau, a infraestrutura portuária, a disponibilidade de mão de obra, a concentração de fornecedores e a abertura ao comércio exterior ajudaram a formar cadeias produtivas altamente integradas.

Nas últimas décadas, entretanto, a economia regional passou por uma transformação. Se a imagem de Guangdong durante os primeiros anos da abertura econômica estava associada principalmente a fábricas de baixo custo e produtos destinados à exportação, hoje a província abriga cadeias de eletrônicos, semicondutores, automóveis, baterias, equipamentos industriais, telecomunicações, robótica e energia renovável.

Essa transformação pode ser observada também nos investimentos. Em 2025, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento em Guangdong cresceram 24,3%, enquanto os investimentos em internet e serviços relacionados aumentaram 115,6%.

A história de Guangdong e o comércio com o mundo

A posição marítima de Guangdong foi decisiva para sua história. Guangzhou já era um importante centro comercial muito antes da industrialização contemporânea. A cidade funcionou como ponto de entrada e saída de mercadorias e pessoas e manteve relações comerciais com outras partes da Ásia durante diferentes períodos históricos.

A partir dos séculos XVIII e XIX, Guangzhou também se tornou um dos principais pontos de contato entre a China e comerciantes europeus. O sistema comercial conhecido como Cantão concentrou durante determinado período grande parte do comércio entre comerciantes ocidentais e o Império Qing.

Esse passado ajuda a explicar uma característica que ainda define Guangdong: sua forte conexão com o exterior.

Essa conexão não ocorreu apenas por meio de mercadorias. Pessoas também atravessaram os mares. Durante o século XIX e o início do século XX, milhares de habitantes de Guangdong deixaram suas aldeias em busca de oportunidades em outros países.

Guangdong e os imigrantes chineses no Brasil

A ligação entre Guangdong e o Brasil é especialmente importante para compreender a formação da comunidade chinesa brasileira.

Pesquisas acadêmicas sobre a imigração cantonesa indicam que imigrantes provenientes da região de Guangdong se estabeleceram oficialmente no Brasil desde o século XIX. Um estudo da pesquisadora Lucia Wong-Desbrosses, da Universidade de São Paulo, acompanha trajetórias de imigrantes cantoneses que chegaram ao Brasil entre 1900 e 1960, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A imigração chinesa para o Brasil, porém, possui antecedentes ainda mais antigos. A Biblioteca Virtual de Estudos da Migração Chinesa no Brasil, ligada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, aponta registros de presença chinesa no país desde 1809. Durante boa parte do século XIX, entretanto, a comunidade permaneceu pequena, crescendo significativamente a partir da segunda metade do século XX.

Um episódio simbólico ocorreu em 1900, quando 107 chineses chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do navio Vapor Malange. A data de 15 de agosto passou posteriormente a ser reconhecida oficialmente como o Dia Nacional da Imigração Chinesa no Brasil.

Parte dessa população tinha origem em Guangdong ou em áreas culturalmente ligadas à região cantonesa. Famílias provenientes do sul da China participaram da formação de redes comerciais, restaurantes, pequenas empresas e atividades profissionais em diferentes cidades brasileiras, e seguem contribuindo para a economia e sociedade brasileira até os dias de hoje.

Kaiping e a memória da diáspora chinesa

É justamente nesse ponto que Kaiping ganha importância especial para brasileiros interessados na história da imigração chinesa.

Os diaolou de Kaiping foram construídos em uma época em que moradores locais emigravam para diferentes partes do mundo e alguns retornavam com dinheiro, experiências e referências arquitetônicas adquiridas no exterior.

A UNESCO considera os edifícios uma expressão física desse intercâmbio cultural. A organização destaca que os retornados trouxeram estilos arquitetônicos da América do Norte que foram combinados com tradições locais chinesas.

Embora a documentação da UNESCO destaque principalmente as conexões de Kaiping com comunidades em outras partes da Ásia, Australásia e América do Norte, a história mais ampla da imigração cantonesa mostra como a região funcionou como uma das grandes fontes da diáspora chinesa moderna.

Visitar Kaiping, portanto, significa observar mais do que uma coleção de edifícios históricos. É possível enxergar na paisagem rural de Guangdong uma parte da história global da migração chinesa.

Guangdong hoje

Guangdong reúne em um mesmo território elementos que, em outras partes do mundo, normalmente aparecem separados: grandes centros financeiros, cidades industriais, polos tecnológicos, portos globais, áreas rurais tradicionais, patrimônios históricos e paisagens naturais.

Guangzhou preserva a memória de mais de dois milênios de história urbana. Shenzhen representa a experiência da reforma e abertura e a ascensão da economia tecnológica. Foshan e Dongguan revelam a força da manufatura. Zhuhai mostra a integração crescente do Delta do Rio das Pérolas. Chaozhou preserva tradições culturais e gastronômicas próprias. E Kaiping oferece uma das melhores portas de entrada para compreender a história da diáspora chinesa.

Para o visitante brasileiro, Guangdong possui ainda uma camada adicional de significado. A província não é apenas uma das regiões economicamente mais importantes da China: é também uma das origens de parte das comunidades chinesas que ajudaram a construir a presença da China no Brasil.

Conhecer Guangdong, nesse sentido, significa percorrer uma região que conecta duas histórias. De um lado, está a transformação de uma área do sul da China em uma das maiores plataformas econômicas e tecnológicas do planeta. De outro, está a trajetória de famílias que, ao longo de gerações, atravessaram oceanos, estabeleceram negócios e comunidades e ajudaram a construir os vínculos humanos que hoje fazem parte das relações entre Brasil e China.

Fontes e referências

Redação Panorama em Foco
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