Etanol de milho pode demandar aportes de R$ 14 bi em eucalipto

Etanol de milho pode demandar aportes de R$ 14 bi em eucalipto

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O plantio de eucalipto para atender exclusivamente à necessidade de abastecimento energético das usinas de etanol de milho de Mato Grosso pode demandar investimentos entre R$ 7,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões pelos próximos anos. A estimativa é do Itaú BBA, que realizou as projeções considerando que a indústria do biocombustível não deverá recorrer, em escala, a outra biomassa que não o eucalipto para queimar em suas caldeiras e rodar suas fábricas.

Em um cenário conservador, no qual as unidades de cogeração de energia a biomassa tenham um perfil pouco eficiente, a produção de etanol de milho esperada no Estado para 2030, de 12 bilhões de litros, deverá consumir aproximadamente 82 mil hectares de floresta de eucalipto a cada ano.

Como o eucalipto demora sete anos para chegar ao seu primeiro ciclo de maturação para a colheita, será necessário que, até 2028, haja 572 mil hectares plantados com eucalipto em Mato Grosso. Porém, até o fim do ano passado, o Estado tinha 165 mil hectares plantados com a espécie, de acordo com levantamento do Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea). Para cobrir a diferença, o investimento para formar toda a floresta necessária chegaria a R$ 14,3 bilhões.

Para chegar ao valor, o Itaú BBA considerou um custo médio de R$ 35 mil o hectare ao longo de um período de 13 anos. Esse valor inclui o gasto com plantio no primeiro ano e os custos de manutenção nos anos seguintes, incluindo um corte quando as árvores alcançam sete anos, e um segundo corte após mais seis anos.

Em um cenário em que as plantas de cogeração de energia tenham um nível médio de eficiência energética, que o banco considerou como o cenário-base, a necessidade de biomassa seria menor. Com isso, a área de eucalipto necessária para abastecer a indústria de etanol de milho do Estado até 2030 seria de 440 mil hectares, com cortes anuais de 63 mil hectares. Para alcançar essa extensão de floresta, seriam necessários investimentos de R$ 9,6 bilhões nos próximos anos.

Já em um cenário em que toda a expansão de capacidade ocorra com plantas de cogeração de alta eficiência, que geram mais energia com menor quantidade de biomassa, o investimento necessário seria de R$ 7,6 bilhões.

Esses investimentos, porém, só devem ocorrer se o Estado de fato implementar as regras previstas no acordo assinado com o Ministério Público estadual em junho, que prevê o fim do uso de biomassa de floresta nativa para agroindústrias de alta intensidade até 2035.

Se todas as indústrias de etanol de milho de Mato Grosso, com 8 bilhões de litros de capacidade instalada ao ano, já usassem hoje apenas biomassa de eucalipto, seriam necessários 383 mil hectares plantados com a árvore e cortes anuais de 37 mil hectares ao ano.

Ou seja, a necessidade de área de eucalipto para atender apenas às indústrias de etanol de milho em atividade hoje já é mais do que o dobro do que a área de fato plantada com a espécie em todo o Estado. Segundo o MP e especialistas, a diferença tem vindo de desmatamento de vegetação nativa.

“Muito do eucalipto que a indústria vai precisar é porque não vai mais poder consumir madeira de supressão florestal. Se [a supressão de vegetação nativa] continuar a ser permitida, o potencial de expansão de eucalipto fica menor”, afirma César Castro Alves, gerente da consultoria agro do Itaú BBA. Para ele, o uso de madeira de desmatamento para alimentar caldeiras das indústrias de etanol de milho “é um detrator da manutenção do bom status de carbono do etanol de milho brasileiro”.

A demanda por capital para atender à necessidade da indústria de etanol de milho não é trivial, ainda mais considerando-se que não existem hoje linhas de financiamento em escala para atender às necessidades da cultura.

O economista observa que diversas variáveis podem interferir no nível de capital necessário para financiar o eucalipto, como a produtividade agrícola. No cenário de menor eficiência, o Itaú BBA considerou um rendimento médio de 30 metros cúbicos de madeira por hectare, mas é possível verificar na prática índices menores, com até 15 metros cúbicos por hectare, ou maiores, de 40 metros cúbicos por hectare, o que, segundo Alves, altera bem as contas por projeto.

A decisão de investimento em um plantio de eucalipto depende hoje do preço da madeira, que disparou nos últimos anos, e da taxa Selic, que também está em índice historicamente elevado. Nas projeções do banco, um investimento em um cultivo de eucalipto hoje, com o valor atual perto de R$ 150 o metro cúbico da madeira, é capaz de alcançar uma remuneração equivalente a 30 sacas de soja por hectare, ou uma taxa interna de retorno de 17% — acima do retorno mínimo, da Selic, de 14%.

Segundo Alves, a tendência é que os plantios sejam mais atrativos para os produtores quanto mais próximos estiverem de uma usina de etanol. “Se [o eucalipto] estiver muito longe, a usina paga menos pela madeira”, explica.

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