Trump pode não reconhecer vitória de Lula caso o presidente seja reeleito neste domingo (4) por uma margem apertada. O alerta é de Nick Zimmerman, que foi diretor para Brasil e Cone Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca durante o governo Barack Obama e hoje é pesquisador sênior do Inter-American Dialogue.
Em entrevista ao podcast A Máquina, da Folha de S.Paulo, Zimmerman afirmou que o grau de interferência do governo Donald Trump na política brasileira não encontra paralelo na história recente das relações entre os dois países.
Para o ex-integrante da Casa Branca, o risco cresce se a diferença entre Lula e seus adversários for pequena. Nesse cenário, Trump poderia se recusar a reconhecer imediatamente o resultado ou vincular o reconhecimento a algum tipo de concessão do governo brasileiro.
A consequência, segundo Zimmerman, não ficaria restrita ao campo diplomático. Um eventual questionamento da eleição poderia servir de base para novas sanções e pressões econômicas contra o Brasil a partir de 2027.
O alerta surge após uma sequência de movimentos de Washington que colocou o governo estadunidense no centro da campanha brasileira. Na quinta-feira (1º), Trump afirmou que acompanha “muito de perto” a eleição no Brasil, classificando o pleito como muito importante.
Zimmerman cita como parte desse ambiente as sanções aplicadas pelo governo americano a autoridades brasileiras, as tarifas utilizadas na disputa com Brasília e outras medidas adotadas por Washington durante o segundo mandato do republicano.
A preocupação também chegou ao Congresso dos próprios Estados Unidos. Em 29 de setembro, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch enviaram uma carta oficial ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando que o governo americano reconheça o resultado certificado das eleições brasileiras e mantenha relações diplomáticas normais com o candidato escolhido nas urnas.
Os parlamentares afirmaram no documento que veem nas ações recentes da administração Trump uma tentativa aparente de interferir no processo eleitoral brasileiro. Também lembraram que, em 2022, os Estados Unidos reconheceram rapidamente a vitória de Lula, movimento que, na avaliação dos senadores, ajudou a retirar força de tentativas de contestação do resultado.
A tensão ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (2), quando os Estados Unidos suspenderam o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e nos consulados espalhados pelo país sob a justificativa de questões de segurança.
Como revelou a Fórum, informes que circularam no Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) alertaram para o risco de uma operação psicológica destinada a criar um ambiente de medo e insegurança na reta final da eleição. A apuração apontou que setores da inteligência passaram a monitorar a possibilidade de uso político do episódio para influenciar o comportamento do eleitor.
A Polícia Federal realizou buscas relacionadas a uma suposta ameaça contra instalações diplomáticas americanas. Até esta sexta-feira, porém, não havia identificado elementos que comprovassem um risco concreto contra as representações dos Estados Unidos.
O episódio ocorreu em um ambiente de preocupação que já vinha sendo explicitado pelo governo brasileiro. Em agosto, Lula havia reagido às pressões de Washington e afirmado que não aceitaria interferência estrangeira nos assuntos internos do país.
O governo Trump, por sua vez, já negou anteriormente que tenha a intenção de minar ou interferir nas eleições brasileiras. Em julho, o Departamento de Estado classificou como infundadas acusações de que uma viagem de funcionários americanos ao Brasil teria como objetivo questionar a integridade do processo eleitoral.
Zimmerman avalia que o comportamento de Washington seria diferente diante de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Na análise do ex-assessor, Trump buscaria maior alinhamento do Brasil com os Estados Unidos, sobretudo na disputa estratégica com a China.
Entre os pontos de interesse estariam infraestrutura, minerais críticos e terras raras. O pesquisador recorda que, no primeiro governo Trump, Washington pressionou o governo Jair Bolsonaro a restringir a participação da chinesa Huawei na implantação da rede 5G brasileira.
Apesar do cenário de pressão econômica e diplomática, Zimmerman considera pouco provável uma intervenção militar direta dos Estados Unidos no Brasil. Para ele, os instrumentos mais plausíveis seriam sanções, tarifas, restrições financeiras e outras medidas capazes de aumentar o custo político e econômico de um eventual confronto entre Brasília e Washington.
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