Enquanto conflitos e hostilidades internacionais adquirem contornos perigosos, com possibilidade de escalada, a China, por meio das recentes visitas de Estado do presidente Xi Jinping ao Quirguistão e ao Egito, busca levar adiante uma mensagem de paz e cooperação internacional.
Ao contrário da visão de mundo característica do Ocidente, que vê o mundo como um tabuleiro de xadrez no qual impera a lógica da soma zero, ou seja, que a vitória de um implica na derrota do outro, a China promove o desenvolvimento conjunto dos países do mundo com base na cooperação e na troca de conhecimentos.
Visita de Estado ao Quirguistão
Xi visitou o país da Ásia Central a convite do presidente quirguiz Sadyr Japarov, com o objetivo de fortalecer a cooperação bilateral entre os dois países. Após a visita de Estado, o mandatário chinês participou da cúpula da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS), realizada em Bishkek.
As relações entre China e Quirguistão têm como principais pilares a cooperação econômica, a infraestrutura, o comércio e a integração regional. O país da Ásia Central é estratégico para a China devido à sua localização geográfica, inserida nas rotas terrestres da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), e foi um dos primeiros a aderir à iniciativa proposta por Xi em 2013.
Durante a visita, os dois chefes de Estado destacaram a ampliação da cooperação em áreas como conectividade, energia, transporte e desenvolvimento econômico. Xi afirmou que as relações entre os dois países entraram em uma fase de maior desenvolvimento, enquanto o governo quirguiz ressaltou a importância da parceria com a China para construir infraestrutura e acelerar o crescimento econômico.
Um dos temas estratégicos nas relações bilaterais é a construção e expansão de corredores de transporte ligando a China à Ásia Central, incluindo projetos ferroviários que podem aumentar a integração regional e facilitar o comércio entre a China e diversos países da Eurásia, trazendo benefícios a todos.
Cúpula da OCS
A participação na cúpula da OCS foi o ponto alto da visita de Xi a Bishkek. Na ocasião, o mandatário chinês esteve ao lado de líderes de peso, como o presidente russo Vladimir Putin, o premiê indiano Narendra Modi e o presidente do Irã Masoud Pezeshkian.
Na cúpula do ano passado, em Tiajin, na China, Xi lançou a Iniciativa para a Governança Global (IGG), baseada em cinco princípios: igualdade soberana entre os países; aplicação uniforme de regras internacionais, como a Carta da ONU; multilateralismo; abordagem centrada nas pessoas e ação prática.
Lançada num momento em que a atual ordem mundial excessivamente dominada pelas potências ocidentais, que tem dois pesos e duas medidas, a IGG propõe ao mundo uma ordem internacional mais justa e multipolar, com maior peso para os países do Sul Global.
O lançamento da IGG durante uma cúpula da OCS não foi por acaso: trata-se de uma das mais representativas plataformas não ocidentais de cooperação política, econômica e de segurança, através da qual o mandatário chinês busca mostrar ao mundo, na prática, que a governança global pode ser organizada em torno de múltiplos centros de poder.
A cúpula deste ano ocorreu em um momento de maior atenção internacional sobre o papel da SCO como fórum de articulação entre países asiáticos e parceiros externos, por sua capacidade de construir consensos e cooperações práticas entre países com interesses e realidade muito distintos.
O discurso de Xi na OCS
Em seu discurso na cúpula de Bishkek, Xi defendeu uma maior cooperação entre os países membros da OCS, destacando a necessidade de fortalecer o multilateralismo, ampliar a coordenação econômica e promover uma ordem internacional mais equilibrada.
Reforçando suas declarações feitas em julho, na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, realizada em Shanghai, quando defendeu a cooperação internacional no desenvolvimento democrático e aberto da IA, o presidente chinês propôs a criação de um centro internacional para aplicações de IA durante a cúpula da OCS.
Ele também destacou a importância de fortalecer a cooperação entre os membros da OCX em áreas que vão de comércio e investimentos a recursos energéticos, e convidou os países interessados a participarem da série “Grande Mercado para Todos: Exportar à China”, voltada a ampliar o acesso dos países membros da OCX ao mercado chinês.
Xi também defendeu uma governança global mais representativa, ecoando a IGG; o fortalecimento da cooperação econômica e da conectividade entre os países da organização, ecoando a ICR; a ampliação da cooperação em segurança regional, ecoando a Iniciativa para a Segurança Global; e a promoção do desenvolvimento como elemento central das relações internacionais, ecoando a Iniciativa para o Desenvolvimento Global.
Dessa forma, o presidente chinês utilizou a cúpula de Bishkek para propor um caminho de desenvolvimento multipolar cooperativo valendo-se de múltiplas iniciativas propostas pela China ao longo de mais de uma década, mostrando que elas não são iniciativas isoladas, mas um conjunto de iniciativas que se complementam e se interrelacionam.
Visita ao Egito
Após visitar o Quirguistão, Xi Jinping seguiu para o Egito, em sua primeira visita de Estado ao país em dez anos. A viagem ocorreu a convite do presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi e coincidiu com o aniversário de 70 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países.
Durante a visita, Xi e al-Sisi discutiram o aprofundamento da cooperação bilateral em diversas áreas. O Egito tem ampliado sua aproximação com a China nos últimos anos, especialmente por meio de investimentos chineses em infraestrutura, indústria, energia e projetos relacionados à ICR.
Expansão do comércio bilateral, investimentos chineses em zonas industriais e infraestrutura, cooperação tecnológica e coordenação em assuntos regionais, especialmente no Oriente Médio e na questão palestina, foram os principais temas discutidos entre os líderes dos dois países.
O Egito, que também é membro do BRICS, tem uma enorme importância estratégica devido à sua localização geográfica, especialmente pelo controle do Canal de Suez, uma das principais rotas marítimas do comércio global. A cooperação ganha-ganha com a China tem trazido investimentos e desenvolvimento econômico ao país.
Exercícios militares conjuntos
Antes da visita de Xi, a cooperação militar entre China e Egito ganhou destaque com a realização de exercícios conjuntos envolvendo forças aéreas dos dois países. As atividades incluíram a participação de aeronaves chinesas e egípcias e foram apresentadas pelos governos como parte do aprofundamento da cooperação em defesa.
Os exercícios envolveram caças chineses J-16 e aeronaves egípcias, incluindo os caças Rafale de fabricação francesa. A realização dessas manobras chamou atenção por combinar equipamentos de diferentes origens e demonstrar o crescimento da interação militar entre Pequim e Cairo.
Um fato que chamou a atenção do mundo foi o primeiro reabastecimento em voo de um caça de fabricação ocidental, o Rafale da Força Aérea Egípcia, por um avião chinês YY-20. As duas aeronaves estão equipadas com sistema de reabastecimento em voo por sonda cônica, o que tornou o reabastecimento possível.
Em um mundo marcado por tensão internacional, a China, como potência em ascensão, tem buscado a autossuficiência de suas forças armadas, pois sabe que sua soberania depende da capacidade de manter em suas mãos toda a cadeia de produção de seus armamentos, sem depender de fornecedores externos.
Já o Egito está longe de ser uma potência, tanto industrial quanto militar. Assim, sua estratégia de defesa consiste em diversificar parceiros militares e diplomáticos para ter um leque maior de opções no caso de um conflito armado.
De qualquer forma, a mensagem que fica após todos esses eventos é que a China e seus parceiros do Sul Global buscam a cooperação e o desenvolvimento conjunto ao invés de guerra e destruição. Mas, diante das crescentes ameaças geopolíticas, entendem que precisam estar preparados em todas as frentes.
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