A confirmação de quatro casos de Febre do Nilo Ocidental no Brasil em 2026, incluindo uma morte em Santa Catarina, colocou novamente a doença no radar das autoridades de saúde. São dois casos em São Paulo e dois em Santa Catarina, além de um caso provável em investigação no Piauí, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde.

A doença é causada pelo vírus do Nilo Ocidental e transmitida principalmente pela picada de mosquitos do gênero Culex, conhecidos popularmente como pernilongos ou muriçocas. O vírus circula naturalmente entre mosquitos e aves silvestres. Humanos e equinos podem ser infectados de forma acidental, mas normalmente não desenvolvem quantidade suficiente de vírus no sangue para infectar novos mosquitos.
O cenário chama atenção porque, embora a maioria das pessoas infectadas não apresente sintomas, uma parcela dos pacientes pode desenvolver uma forma grave da doença, com comprometimento do sistema nervoso. Nesses casos, podem ocorrer encefalite, meningite, convulsões, alterações de consciência e até paralisia.
Os quatro casos confirmados em 2026 estão distribuídos entre São Paulo e Santa Catarina.
Em São Paulo, os registros são os primeiros casos humanos confirmados na história do estado. Uma mulher de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto, teve histórico recente de viagem para a região amazônica e já se recuperou. O segundo caso envolve uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto, que permanecia internada sob cuidados médicos na atualização mais recente das autoridades. A origem das duas infecções ainda é investigada.
Em Santa Catarina, uma mulher de 77 anos, moradora de Imbituba, morreu no dia 8 de agosto após apresentar manifestações neurológicas. O outro paciente é um homem de 56 anos, de Caçador, que também apresentou sintomas neurológicos, mas recebeu alta após tratamento hospitalar.
Além dos quatro casos confirmados, o Ministério da Saúde informou que acompanha um caso provável no Piauí. Trata-se de uma mulher de 35 anos, moradora de Canavieiras, que chegou a ser internada em Teresina e já recebeu alta. Um exame realizado pelo Instituto Evandro Chagas apresentou resultado reagente, mas a confirmação ainda depende de teste de neutralização.
O principal motivo é que a infecção pode passar completamente despercebida e, em uma parcela muito menor dos pacientes, evoluir para uma doença neurológica grave.
Estima-se que aproximadamente 80% das pessoas infectadas não apresentem sintomas. Entre os pacientes sintomáticos, os quadros mais comuns são semelhantes aos de outras doenças infecciosas: febre, dor de cabeça, mal-estar, dores musculares, náuseas, vômitos e manchas na pele.
O problema aparece quando o vírus atinge o sistema nervoso. Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente uma em cada 150 pessoas infectadas pode desenvolver uma forma neurológica grave da doença. Entre as manifestações estão meningite, encefalite e paralisia flácida aguda.
Por isso, sintomas como confusão mental, alteração do nível de consciência, convulsões, fraqueza muscular intensa ou paralisia, principalmente associados a um quadro febril, merecem avaliação médica.
O ciclo da Febre do Nilo Ocidental envolve principalmente aves e mosquitos.
O mosquito Culex se infecta ao picar uma ave que carrega o vírus. Depois, ao picar outro animal ou uma pessoa, pode transmitir o vírus.
O ser humano, porém, é considerado um hospedeiro acidental. Em geral, a quantidade de vírus presente no sangue humano não é suficiente para que outro mosquito se infecte ao picar aquela pessoa.
Por isso, a Febre do Nilo Ocidental não é transmitida normalmente de uma pessoa para outra. A circulação do vírus depende principalmente do ciclo entre aves e mosquitos.
Existem, entretanto, formas raras de transmissão, como por transfusão de sangue, transplante de órgãos e transmissão da mãe para o bebê durante a gestação.
A dengue, a zika e a chikungunya são transmitidas principalmente pelo Aedes aegypti. Já o vírus do Nilo Ocidental é transmitido principalmente por mosquitos do gênero Culex.
O Culex é o conhecido pernilongo comum. Ele possui hábitos diferentes do Aedes e participa de um ciclo que envolve principalmente aves silvestres.
Essa diferença é importante porque o combate à doença não depende apenas das mesmas estratégias utilizadas contra o Aedes. O Ministério da Saúde destaca também a necessidade de vigilância ambiental, animal e entomológica para identificar a circulação do vírus.
Na maioria dos casos, não há sintomas. Quando eles aparecem, podem incluir:
Nos casos mais graves, podem surgir sintomas neurológicos, como:
Essas manifestações não significam necessariamente que a pessoa esteja com Febre do Nilo Ocidental, já que outras infecções também podem provocar sintomas semelhantes. O diagnóstico depende de avaliação médica e exames laboratoriais.
Um dos desafios é a semelhança com outras infecções. O vírus do Nilo Ocidental pertence ao mesmo grupo de vírus que inclui os causadores da dengue, da zika e da febre amarela. Por isso, alguns testes podem apresentar reação cruzada, dificultando a interpretação dos resultados.
O diagnóstico pode ser feito pela identificação de anticorpos contra o vírus ou por métodos moleculares, como o RT-PCR, dependendo do momento da infecção e do quadro apresentado pelo paciente. Em casos com comprometimento neurológico, também podem ser analisadas amostras de líquido cefalorraquidiano.
Apesar de a confirmação dos primeiros casos humanos em São Paulo ter chamado atenção, a Febre do Nilo Ocidental não é uma doença nova no Brasil.
O primeiro caso humano confirmado no país ocorreu no Piauí, em 2014. Desde então, registros humanos foram identificados de maneira esporádica em diferentes regiões. Segundo levantamento citado pela Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, o Piauí concentrou parte importante dos registros, enquanto evidências de circulação viral também foram encontradas em outros estados.
A circulação do vírus também já foi identificada em animais.
O Paraná também já entrou no mapa da vigilância da Febre do Nilo Ocidental.
Em setembro de 2021, a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) confirmou a presença do vírus em uma mula no município de Porecatu, no Norte do estado. O animal, uma fêmea de seis anos, apresentou tremores e perda de coordenação dos movimentos, evoluiu para um quadro grave e morreu. O diagnóstico foi confirmado por RT-qPCR em amostra de líquido cefalorraquidiano.
Na ocasião, a ocorrência reforçou a importância da vigilância de animais com sintomas neurológicos, já que equinos e aves podem funcionar como importantes indicadores da circulação do vírus.
A própria estrutura de vigilância laboratorial brasileira prevê o monitoramento de casos humanos, aves silvestres e equídeos. Entre os laboratórios de referência estão o Instituto Evandro Chagas, a Fiocruz e o Instituto Adolfo Lutz, além da Fiocruz Paraná.
Não há vacina disponível para prevenir a Febre do Nilo Ocidental em humanos no Brasil.
Também não existe um antiviral específico contra a doença. O tratamento é feito de acordo com os sintomas apresentados pelo paciente.
Nos casos leves, podem ser adotadas medidas de suporte. Já os quadros que atingem o sistema nervoso podem exigir internação e até atendimento em unidade de terapia intensiva, principalmente quando há comprometimento neurológico grave.
Como a principal forma de transmissão é a picada do mosquito infectado, a prevenção passa pela redução da exposição aos insetos.
As principais recomendações são:
Pessoas que trabalham ao ar livre, especialmente em áreas rurais e silvestres, devem reforçar a proteção contra picadas.
O aumento da vigilância no Brasil acontece em um momento em que o vírus também é acompanhado de perto na Europa. A Febre do Nilo Ocidental afeta doze países europeus em 2026, com centenas de casos notificados em regiões como Itália e Grécia, segundo dados do Centro Europeu para a Prevenção e o Controle de Doenças (ECDC).
O ECDC mantém monitoramento sazonal da Febre do Nilo Ocidental e destaca que a Europa vem enfrentando temporadas de transmissão de doenças transmitidas por mosquitos mais longas e intensas.
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