Fernando Cerimedo: ex, alvo de aliado do clã Bolsonaro, revela esquema de corrupção de Milei na Argentina

Fernando Cerimedo: ex, alvo de aliado do clã Bolsonaro, revela esquema de corrupção de Milei na Argentina

  • 19 de agosto de 2026
  • Mundo
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Fernando Cerimedo, estrategista argentino ligado ao clã Bolsonaro e ex-assessor de Javier Milei, disse à ex-companheira Nadia Beller que Karina Milei estava envolvida em corrupção no governo argentino, segundo relato dado por ela ao jornal La Nación e publicado nesta quarta-feira (19). A declaração abre uma nova frente no escândalo da antiga Agência Nacional de Deficiência (Andis), que já levou 19 ex-funcionários e empresários a serem processados pela Justiça argentina.

Beller falou de uma clínica em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde está internada depois de ser atingida por três tiros na noite de segunda-feira (17). Ela acusa Cerimedo de ter encomendado o ataque. O consultor foi detido horas depois no aeroporto de Viru Viru, e a polícia boliviana investiga se ele teve participação na emboscada.

Ao relatar conversas mantidas durante o relacionamento, Beller afirmou que Cerimedo dizia ter se afastado do núcleo de Javier Milei por causa do ambiente de corrupção no entorno presidencial. Segundo ela, o ex-assessor foi explícito ao mencionar a irmã e principal operadora política do presidente argentino: “Fernando me disse que a irmã de Milei estava envolvida com a corrupção”.

Karina Milei ocupa o cargo de secretária-geral da Presidência da Argentina e é uma das figuras de maior influência no governo do irmão.

Fernando Cerimedo já havia levado a trama da Andis à Justiça

O relato de Nadia Beller não surge isoladamente. Em setembro de 2025, Fernando Cerimedo prestou depoimento como testemunha ao fiscal federal Franco Picardi na investigação sobre corrupção na Andis e confirmou que Diego Spagnuolo, então chefe do órgão e ex-advogado pessoal de Javier Milei, havia falado com ele sobre corrupção e pagamento de propinas.

Segundo o depoimento judicial de Cerimedo, Spagnuolo lhe contou que fornecedores de medicamentos teriam sido informados de que o percentual cobrado sobre contratos passaria de 5% para 8%. Os 3% adicionais, de acordo com o que Cerimedo disse ter ouvido de Spagnuolo, teriam como destino a Casa Rosada e seriam operados politicamente por Eduardo “Lule” Menem, braço direito de Karina Milei.

Cerimedo também declarou que Spagnuolo lhe disse ter avisado o próprio Javier Milei sobre o esquema. Trata-se de um relato atribuído: a Justiça investiga a estrutura de corrupção, mas isso não equivale a afirmar que o presidente tenha sido condenado ou responsabilizado criminalmente pelos fatos narrados.

Os relatos ganharam peso porque antecederam e coincidiram com pontos centrais dos áudios atribuídos a Spagnuolo que detonaram a crise em agosto de 2025. As gravações descreviam cobrança de propinas em contratos de medicamentos e mencionavam Karina Milei e “Lule” Menem.

Justiça processou 19 pessoas por corrupção na Andis

O caso avançou muito além da disputa sobre a origem dos áudios. Em fevereiro de 2026, o juiz federal Sebastián Casanello processou 19 pessoas, entre seis ex-funcionários e 13 empresários, por uma estrutura que teria utilizado a Andis para direcionar contratos, cobrar sobrepreços e pagar propinas.

Entre os processados está Diego Spagnuolo. A investigação aponta que a estrutura funcionou principalmente na contratação de medicamentos e insumos destinados a pessoas com deficiência, com recursos públicos desviados por meio de compras direcionadas e pagamentos indevidos.

Karina Milei, embora apareça nos relatos e nos áudios que deram origem ao escândalo, não estava entre os 19 processados na decisão de fevereiro. A distinção é importante: as acusações contra a secretária-geral da Presidência fazem parte dos elementos políticos e testemunhais que cercam o caso, mas não constituem condenação judicial.

A própria estrutura administrativa mudou depois do escândalo. No fim de 2025, o governo incorporou a antiga Andis ao Ministério da Saúde, e a área passou a funcionar como Secretaria Nacional de Deficiência.

Nadia Beller diz que Cerimedo e a mulher vazaram áudios

Na entrevista publicada nesta quarta-feira, Beller acrescentou um elemento explosivo sobre a origem do escândalo. Segundo ela, Cerimedo lhe contou que ele e sua mulher, Natalia Basil, ex-dirigente da Andis, estiveram por trás do vazamento dos áudios de Spagnuolo para impedir que as denúncias de corrupção fossem abafadas.

Beller afirmou ainda que Cerimedo dizia que o vazamento havia provocado o rompimento com o núcleo mileísta. A autoria da filtragem, porém, é uma afirmação atribuída a Beller e não deve ser tratada como fato judicialmente estabelecido.

A nova revelação aparece justamente quando Cerimedo enfrenta uma crise criminal na Bolívia. A Fórum mostrou que o estrategista foi detido após o ataque a tiros contra Beller. Ela sustenta que o ex-companheiro foi o mandante da ação; as autoridades bolivianas apuram a acusação.

No Brasil, Cerimedo é conhecido por sua proximidade com Eduardo Bolsonaro e por sua atuação nas redes da extrema direita latino-americana. Em julho, Eduardo Bolsonaro voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro em uma transmissão com o argentino.

Agora, o homem que ajudou a construir a comunicação digital de Milei e se tornou elo do bolsonarismo com a extrema direita argentina reaparece no centro de duas investigações sensíveis: na Bolívia, pela suspeita de participação no ataque contra Nadia Beller; e, na Argentina, como testemunha que já havia levado à Justiça detalhes sobre a engrenagem de propinas que atingiu o coração político do governo Milei.

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