Memórias do Mar do Sul da China

Memórias do Mar do Sul da China

  • 18 de agosto de 2026
  • Mundo
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A imigração chinesa no Brasil começou quase um século antes da japonesa, com homens contratados para trabalhar em lavouras de chá, muitos dos quais mais tarde se tornariam comerciantes ou trabalhadores braçais.

 

Como eram quase todos homens, tiveram que assimilar a cultura local e só podiam se casar com as mulheres disponíveis no Brasil, já que trazer alguém de tão longe sairia caro demais. Naquela época só podia se casar quem era batizado na igreja católica. E o registro de batismo exigia um nome cristão.

 

Com isso, os primeiros chineses no Brasil ou não tiveram descendência, ou seus filhos, ao se casarem com brasileiras, perderam gradualmente os vínculos culturais com a China.

 

Já a história dos chineses nas Filipinas, país que, assim como o Brasil, foi colonizado por cristãos ibéricos, teve outro rumo: mesmo os que adotaram nome cristão e se naturalizaram filipinos conseguiram preservar seu legado chinês.

 

 

Os Chineses nas Filipinas

 

Estudos arqueológicos e documentos históricos apontam o início do contato entre chineses e as Filipinas por volta do final da Dinastia Tang (618-907), muito antes da chegada dos colonizadores espanhóis em 1521.

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Já a relação do governo colonial espanhol, entre os séculos XVI e XIX, com os chineses foi ambígua: em diversos momentos ele favoreceu os imigrantes vindos da China porque ofereciam habilidades e serviços dos quais a colônia precisava, mas também houve massacres e expulsões, como em 1603 e 1639. Os chineses, por sua vez, eram atraídos pelo comércio lucrativo gerado pela rota do Galeão de Manila-Acapulco.

Um desses imigrantes chineses foi Go Bon Tiao, nascido na província de Fujian, que migrou para as Filipinas em 1860, quando o porto de Cebu foi aberto ao comércio internacional. Sua integração com a sociedade local o levou a adotar o nome cristão Pedro e o sobrenome do seu padrinho de batismo, Mariano Singson, tornando-se conhecido como Don Pedro Singson Gotiaoco.

Repare bem: Gotiaoco. Ao contrário do Brasil, onde o imigrante chinês adquiria um sobrenome português e ponto final, nas Filipinas ele adotava, além de um sobrenome europeu, um segundo sobrenome adaptado de seu nome chinês: Go Tiao deu origem a Gotiaoco. Dessa forma a ancestralidade chinesa foi preservada e enriqueceu a lista de sobrenomes tipicamente filipinos.

Sem dinheiro, Pedro Gotiaoco trabalhou em várias ocupações até se tornar comerciante e, com seu irmão, fundar a casa comercial Hermanos Gotiaoco. Habilidoso nos negócios, o iimgrante chinês ascendeu socialmente e integrou-se à elite local.

 

O Edifício Gotiaoco

 

Enquanto estudava em Hong Kong, Manuel Gotianuy, filho de Pedro Gotiaoco, observou que no entorno do movimentado porto de Cebu havia uma demanda não atendida por escritórios, armazéns, lojas e hotéis, o que o levou a construir edifícios na área.

 

Um desses empreendimentos imobiliários, construído em 1914, é o edifício Gotiaoco, hoje tombado pelo patrimônio histórico da cidade, mas que escapou por pouco de ser demolido e hoje abriga o Museu do Patrimônio Chinês de Cebu.

 

Construído em estilo neoclássico, o edifício conta com uma estrutura irregular de três andares. Uma arcada atravessava o rés-do-chão e estendia-se até ao segundo piso, encimada por um parapeito ao redor do telhado, num estilo que remete ao Renascimento europeu. Acredita-se que o Edifício Gotiaoco foi a primeira edificação com elevador em Cebu. O elevador não existe mais, mas o fosso original está conservado.

 

Adaptar um patrimônio arquitetônico para funcionar como museu é um grande desafio: gestores precisam encarar diversos requisitos e regulamentos para a conservação e sustentabilidade do edifício. Antes do início da restauração do Edifício Gotiaoco, foi elaborado um Relatório de Estruturas Históricas.

 

Esse relatório foi desenvolvido pela primeira vez em 1935 para documentar os proprietários, a construção, as alterações posteriores, as condições encontradas e as ações futuras.

 

 

Comércio em Cebu no período pré-colonial

 

Graças à sua localização estratégica, Cebu consolidou-se, em tempos pré-coloniais, como um importante centro comercial e ponto de intercâmbio cultural entre as diversas ilhas filipinas e as entidades políticas do Sudeste Asiático.

 

Os registos arqueológicos revelam uma intensa circulação de porcelanas, tecidos, metais preciosos, especiarias, produtos agrícolas e outros bens, evidenciando que o comércio não se limitava a mercadorias, mas também transportava tecnologias e práticas culturais.

 

As peças expostas no museu são testemunhos desse passado comercial. Fontes históricas, etnográficas e arqueológicas confirmam o papel ativo das Filipinas numa vibrante rede inter-regional, que integrava o arquipélago ao comércio marítimo do Sudeste Asiático muito antes da chegada dos espanhóis.

 

Como parte do centro de comércio marítimo, Cebu relacionava-se com centros como Butuan, Maguindanao, Sulu e outras ilhas, conforme citado por estudiosos. Para prosperar, o centro comercial organizava-se numa hierarquia que negociava, dirigia e alocava recursos.

 

Entre os itens comercializados estavam cerâmicas e porcelanas da China, Annam (atual Vietnã) e Sião (Tailândia); especiarias aromáticas e de alto valor, como cravo, noz-moscada e canela, provenientes de várias ilhas do Sudeste Asiático; têxteis de seda, algodão e abacá; pérolas, pepinos-do-mar e conchas, como madrepérola, altamente valorizadas para decoração; animais exóticos e seus produtos, como aves raras, penas preciosas, cascos de tartaruga e resinas aromáticas de espécies vegetais específicas e madeiras nobres; produtos agrícolas como arroz, frutas e tubérculos; e metais preciosos, como ouro, além do ferro da China, muito procurado para fabricação de armas brancas e outros utensílios.

 

A troca desses bens teve um papel significativo na formação da dinâmica cultural, econômica e social das Filipinas pré-hispânicas e do Sudeste Asiático como um todo.

 

 

O Porto de Cebu

 

O porto recebia tanto comerciantes locais como estrangeiros de outros países asiáticos antes da chegada dos espanhóis em 1521, como comprovam escavações arqueológicas nas proximidades, que revelaram bens comerciais, incluindo artefatos chineses de diversas dinastias, de Song (960-1279) a Ming (1368-1644).

 

Em 1860, o porto foi aberto ao comércio mundial. A abertura do Canal de Suez, em 1869, facilitou a exportação de produtos agrícolas, encurtou a viagem da Europa para a Ásia e aumentou o tráfego marítimo entre o Oceano Índico e a China.

 

Em 1904, durante o período em que as Filipinas estivam sob domínio dos EUA, foi construído um cais de madeira temporário de 30 pés (cerca de 9 metros) em resposta ao crescimento económico de Cebu. Entre 1904 e 1913, as melhorias portuárias incluíram a construção de um cais de alvenaria de betão e um molhe com cerca de 2.600 pés (cerca de 792 metros) de extensão, além da recuperação de cerca de 5,26 hectares (52.609,13 m²) de terreno sobre o mar para descongestionar a zona comercial. Navios com calado de 23 pés (cerca de 7 metros) podiam atracar ali.

 

Atualmente, o Porto de Cebu tem uma área total de 40 hectares, com quatro cais para navegação inter-ilhas, um porto internacional, dois terminais de passageiros e um terminal de balsas para viagens entre a Cidade de Cebu e a Ilha de Mactan.

 

 

O Junco Chinês e o Comércio com o Sião

 

Para introduzir os visitantes do museu à história e ao legado dos chineses em Cebu, o que seria mais simbólico do que uma réplica de um junco chinês do século XII, que levou comerciantes, viajantes e migrantes à procura de melhores oportunidades no além-mar?

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A réplica, em escala, do junco é uma excelente atração do museu. Mas levanta um questionamento: Cebu teria sido alguma vez visitada por um junco? Não há evidência arqueológica direta disso, mas um relato escrito por Antonio Pigafetta, companheiro de viagem de Fernão de Magalhães, menciona um junco vindo de Sião, que transportava ouro e escravos, e afirma que o rajá Humabon, líder supremo do antigo reino de Sugbu (atual Cebu) comia em tigelas de porcelana e usava seda enrolada na cabeça.

 

Dos juncos chineses do século XII aos navios a vapor do século XIX, de comerciantes fujianeses a estudantes formados em Hong Kong, a história de Cebu é uma história de encontros. O comércio trouxe não apenas mercadorias, mas ideias, crenças e pessoas. E os chineses que ali se estabeleceram tiveram papel ativo na modernização da cidade.

 

O Edifício Gotiaoco, hoje restaurado e transformado em museu, é um marco físico dessa trajetória. Mas o verdadeiro legado está na forma como a cultura chinesa se entrelaçou com a cultura filipina, criando uma identidade mestiça que resistiu ao tempo e às adversidades. Ao visitar o museu, o público não está apenas conhecendo o passado — está testemunhando como a diversidade, quando acolhida, se transforma em riqueza.

Redação Panorama em Foco
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