
No começo da década de 2020, ninguém apostaria que uma das maiores revelações do rock brasileiro por vir seria uma banda capaz de combinar metal extremo com ritmos brasileiros e os aspectos mais cult do progressivo. Neste cenário, o Papangu se revelou um dos grupos mais interessantes a surgir no país ao longo dos últimos anos.
Os dois primeiros álbuns da banda paraibana – Holoceno (2021), Lampião Rei (2024) – representam uma evolução com relação ao anterior e um refino da fórmula sonora, calcada numa mistura de ritmos nordestinos, metal e rock progressivo — em especial uma vertente europeia chamada zeuhl, inventada pelo conjunto francês Magma, que engloba elementos de jazz fusion e neoclássico. Entretanto, o que deveria ter sido uma celebração logo se tornou dor de cabeça.
Em 2024, após um show no Rio de Janeiro, os integrantes tiveram seu carro, equipamentos e itens de merchandise roubados à mão armada. R$ 50 mil de perdas. O fato de Celestial ser, talvez, o trabalho mais ambicioso e implacável do Papangu até hoje mostra a resiliência do grupo o compromisso de não ceder aos revezes da vida ou às pressões de mercado.
Quando uma banda associada a metal extremo faz algo assim, o som geralmente pende para algo mais pesado. Já no caso de Celestial, o Papangu se apoiou mais nos elementos mais “cabeça” do seu estilo.
As influências de forró, ciranda, Hermeto Pascoal e o álbum Paêbirú (1975), obra cult brasileira de Lula Côrtes e Zé Ramalho, coexistem com gigantes do progressivo King Crimson – especialmente o caos controlado da fase do disco Lark’s Tongue in Aspic (1973) – e o já mencionado Magma.
Ainda assim, não quer dizer que o metal esteja ausente. Celestial é cheio de momentos nos quais marcas registradas da música pesada – bumbo duplo, blast beats e os vocais guturais de Hector Ruslan – fazem aparições pontuais. Na canção “Taxidermia”, tudo isso coagula para gerar a composição mais pesada já feita pela banda, com uma letra crítica à desigualdade social no Brasil, usando os coronéis do Nordeste como exemplo de opressão.
A escrita é cheia de estrofes repetidas como mantras, mas cujos versos mais pertinentes aparecem logo no começo:
“Prosperam caciques do cão, consomem a inanição
Promessa vendida a granel, cobaias da flagelação”
“Colosso” vê o grupo abordando a tragédia de civilizações consumidas pela própria arrogância, inspirado em exemplos do mundo antigo, como o Colosso de Rodes, e no poema “Ozymandias”, de Percy Shelley. Porém, o trunfo da letra é contextualizar esses temas em algo muito conhecido pelo brasileiro, que é a música de pescador. A decadência fica subentendida na forma do homem desafiando a natureza, assunto frequente no cancioneiro nacional.
“Cantiga dum lugar ali depois do mar
Conselho bom de esquecer
Retrato pedestal firmado no pontal
Separa o cais do entardecerO rosto bronzeado
Colosso decorado
O sal a terra cobre
Maré e vento forte
Tombou por mau olhado
Colosso engolido
Capado e desmontado
Semblante corroído”
Há de se ressaltar, ainda, o processo por trás de Celestial. Se o som fica marcado pela determinação de não ceder criativamente em nada e as letras fazem alusões constantes ao ato físico de fazer arte, tais características se refletem na tecnologia usada nas gravações.
A banda trabalhou com Richard Behrens – que já havia produzido o disco anterior, Lampião Rei – em Berlim, mas dessa vez tudo foi gravado diretamente em fita. Sem computadores. Tudo analógico; até mesmo a masterização. Em meio a discussões constantes sobre o papel da tecnologia na vida cotidiana e uso de inteligência artificial na música, isso é uma escolha deliberada e inerentemente política.
No final, tudo isso não teria muito efeito se Celestial falhasse em cumprir a promessa de seus conceitos e ambições. Felizmente, o álbum triunfa nesse aspecto. Papangu criou uma sinfonia caleidoscópica que remete ao passado, comenta sobre o presente e aponta para o futuro.
*Celestial, novo álbum do Papangu, está disponível nas plataformas digitais via gravadora Deck.
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