
Quando os Ramones viajaram para Los Angeles, em agosto de 1976, para realizar seus primeiros shows na Costa Oeste, eles já haviam se estabelecido como a banda de vanguarda da efervescente cena punk de Nova York, assinado contrato com a Sire Records, lançado seu revolucionário álbum de estreia, feito shows de ponta a ponta da Costa Leste e até realizado dois shows históricos em Londres, um mês antes, que tiveram um impacto sísmico na cena do rock underground em ascensão que havia acabado de gerar bandas como Clash, Sex Pistols, Damned e muitas outras.
Mas o punk ainda não havia chegado de fato à Califórnia naquele momento, embora as Runaways já tivessem sido formadas, e a imprensa ainda demonstrava bastante ceticismo em relação aos Ramones e a todo o movimento que eles representavam. “A foto da capa do álbum [de estreia] — que parece ter sido tirada de um cartaz de procurados dos correios — mostra quatro jovens durões vestindo jaquetas de couro pretas e jeans velhos e amassados”, escreveu o renomado crítico do Los Angeles Times Robert Hilburn em 1º de agosto de 1976, apenas dez dias antes da estreia dos Ramones em Los Angeles, no Roxy. “Dois dos caras usam óculos escuros e dão aquele sorriso debochado e ligeiramente perverso que faria até a gangue sádica de Laranja Mecânica considerar atravessar a rua para evitar um confronto.”
Hilburn continuou destacando que as músicas do grupo faziam referências a malandros das ruas, uso de drogas e até ao nazismo. “Os Ramones teriam enfrentado muita resistência em 1956”, escreveu. “A questão que se coloca agora é se o grupo é aceitável mesmo em 1976. Caso contrário, as razões para a rejeição serão muito diferentes. Enquanto os Ramones talvez fossem uma ameaça grande demais para os pais nos anos 1950, o grupo pode ser uma piada grande demais agora.”
Ele concluiu que lhes faltavam a “imaginação” de Patti Smith, a “arte” de Bruce Springsteen, a “afeição musical” do Dr. Feelgood e a “fúria e o rosnado” do Aerosmith. “Enquanto o grupo se mantiver tão religiosamente fiel ao molde do punk rock, a música (e a imagem) dos Ramones é fácil de gostar, mas difícil de acreditar”, escreveu. “E a autenticidade sempre foi um elemento crucial do rock.”
Em alguns aspectos, Hilburn estava certo. Patti Smith, Bruce Springsteen e Aerosmith tiveram futuros muito mais brilhantes no mundo da música popular. (O Dr. Feelgood é, em grande parte, uma pequena nota de rodapé nos Estados Unidos.) Mas ele estava errado — e provavelmente seria o primeiro a admitir isso hoje — ao dizer que os Ramones não tinham autenticidade. Eles podem ter adotado nomes falsos, mas Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone tinham um amor profundo e genuíno pela música despojada que faziam, além de um verdadeiro desprezo pelo rock mainstream da época. (Frampton Comes Alive! estava no topo da Billboard 200 quando os Ramones chegaram a Los Angeles; “Don’t Go Breaking My Heart”, de Elton John e Kiki Dee, liderava a Hot 100, e o Yes fazia shows em estádios.)
Os Ramones fizeram shows consecutivos no Roxy nos dias 11 e 12 de agosto de 1976. O Los Angeles Times listou as duas datas em letras minúsculas na página de agenda, perto de palestras públicas como “Aplicações Práticas da Autohipnose”, “Quem Matou John Kennedy” e “Como os Relacionamentos e o Aprimoramento Sexual Realmente Acontecem”.
Na cena dos clubes, havia o letrista do Grateful Dead, Robert Hunter, no Golden Bear; o pianista de jazz Mose Allison, no Lighthouse; e o trompetista de jazz Freddie Hubbard, no Starwood. Todos eles foram ofuscados naquele mês por grandes eventos como Jethro Tull e Robin Trower no L.A. Coliseum; Kiss com Ted Nugent, Montrose e Bob Seger no Anaheim Stadium; e Aerosmith com Lynyrd Skynyrd, Jeff Beck, Rick Derringer e Starz, também no Anaheim Stadium.
Roxy comporta cerca de 1% do público do estádio dos Angels. Mas parecia bastante cheio quando os Ramones subiram ao palco para o show de 12 de agosto e Joey Ramone anunciou em alto e bom som: “Boa noite, somos os Ramones e, se você é um bocudo, é melhor calar a boca, baby”. (Ao contrário da primeira noite, esse show sobreviveu em fita.) Nos 33 minutos seguintes, eles tocaram 13 das 14 músicas do álbum de estreia em velocidade alucinante, deixando de fora apenas “I Don’t Wanna Go Down to the Basement”, além de “I Remember You” e “Glad to See You Go”, do futuro álbum Leave Home.
“O primitivismo extremo dos roqueiros das ruas de Nova York, apresentado como uma proposta de ame ou odeie, é marcado por uma insanidade pura e autêntica e por uma energia genuína e inevitável que se infiltra sob os alicerces das pretensões e artifícios do rock atual”, escreveu Richard Cromelin em uma resenha no Los Angeles Times. “Sua interpretação impassível e acanhada é cativante, e a repetição é compensada pelo ritmo incrivelmente acelerado. Cada música começa com um obsessivo ‘one-two-three-fah!’ (uma vez, eles chegaram até o sete), algumas canções, ao contrário das acusações dos detratores, têm até cinco acordes e, embora haja alguma variação de andamento e estrutura, ela não é suficiente para amenizar o ataque implacável.”
O foco de Cromelin na “insanidade pura e autêntica” dos Ramones parece uma resposta direta à afirmação de Hilburn, feita no início daquele mês, de que os Ramones eram inautênticos. Mas Cromelin teve a vantagem de experimentar os Ramones ao vivo, em carne e osso, no Roxy. Hilburn estava se baseando apenas no álbum e no burburinho incessante vindo de Nova York — algo fácil de descartar porque os New York Dolls, o antecessor mais direto dos Ramones, haviam fracassado depois de apenas dois discos.
Mas Hilburn e outros céticos ainda teriam muitas oportunidades de mudar de ideia nas duas décadas seguintes. O Roxy foi o primeiro dos 180 shows que os Ramones fariam na Califórnia antes de encerrarem as atividades, em 1996. Eles filmaram no Roxy cenas de shows para o filme de 1979, Rock ‘n’ Roll High School; tocaram várias vezes em praticamente todos os clubes da Sunset Strip; se apresentaram no Greek Theatre, em 1990, em um show com um elenco de peso que incluía Debbie Harry, Tom Tom Club e Jerry Harrison; e até realizaram o 2.263º e último show de sua carreira no Palace Theater, em Los Angeles, em 6 de agosto de 1996. Foi uma apresentação de longa duração que contou com participações especiais de Eddie Vedder, Lemmy Kilmister, Chris Cornell e Dee Dee Ramone, que havia deixado a banda sete anos antes.
Parecia estranho que talvez a banda mais essencialmente nova-iorquina da história do rock, rivalizada apenas pelo Velvet Underground, encerrasse a carreira em Los Angeles. Mas, a essa altura, a cidade já era sua segunda casa. Johnny Ramone se mudou para lá logo depois que os Ramones se separaram. Dee Dee Ramone morreu lá em 2002 e está enterrado no Hollywood Forever Cemetery, não muito longe de um monumento dedicado a Johnny que atrai fãs do mundo inteiro. (Joey está enterrado na Costa Leste, em Nova Jersey, e o local de descanso final de Tommy fica em Long Island.)
Para comemorar o aniversário de 50 anos do primeiro disco dos Ramones, um supergrupo formado exclusivamente para a ocasião, com Billie Joe Armstrong, do Green Day, Travis Barker, do blink-182, Tim Armstrong, do Rancid, e C.J. Ramone (substituto de Dee Dee), fará um show em 30 de agosto deste ano. Com todos os integrantes da formação original já mortos, é o mais próximo que teremos atualmente de um verdadeiro show dos Ramones. Mas a apresentação não acontecerá no antigo endereço do CBGB, hoje ocupado por uma loja John Varvatos que recebe shows ocasionalmente, nem em qualquer outro lugar de Nova York. O show será realizado no Hollywood Forever Cemetery, a apenas seis quilômetros do Roxy, onde toda a saga dos Ramones em Los Angeles começou.
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O post Há 50 anos: Ramones enfrentava os céticos do punk em sua estreia em Los Angeles apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
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