Uma investigação internacional revelou uma rede de homens que dopava mulheres, muitas vezes da própria família, com medicamentos controlados para cometer abusos sexuais e vender os registros dos crimes em sites e aplicativos de mensagens. A Polícia Federal brasileira foi acionada no ano passado por um alerta da Europol e identificou cinco suspeitos no país, quatro deles já presos, em estados que vão do Pará ao Rio Grande do Sul. Os agressores agiam dentro de relações de confiança, mentindo sobre a causa dos “apagões” sofridos pelas vítimas para encobrir os crimes.
A rede operava a partir de uma lógica de traição sistemática: as vítimas eram dopadas por parceiros, maridos ou familiares com medicamentos de prescrição restrita, tornando-se incapazes de reagir ou sequer perceber que estavam sendo abusadas. “A vítima não espera que a agressão venha daquela pessoa. Ela é colocada, na verdade, em uma absoluta incapacidade de resistir e de tomar conhecimento de que ela foi vítima daquele crime”, afirmou Flávio Rolim, chefe da Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos de Ódio da Polícia Federal.
Um brasileiro suspeito de integrar a liderança do esquema chegou a elaborar um “manual” detalhando quais medicamentos deveriam ser ministrados às vítimas e quais produziam efeitos mais intensos, segundo Rolim. O homem, preso em fevereiro, também é suspeito de abusar de pessoas da própria família. As mensagens trocadas por ele com outros integrantes da rede mostram a frieza do planejamento: em uma das conversas, um participante pergunta qual antidepressivo seria mais indicado para uma mulher que raramente bebia álcool; em outra, há orientações para triturar comprimidos e dissolvê-los em bebidas.
A Polícia Federal brasileira iniciou as apurações no ano passado, depois que a Europol, agência da União Europeia para cooperação policial, emitiu um alerta sobre o grupo. Foram as autoridades alemãs as primeiras a identificar as atividades da rede e a constatar que ela operava em pelo menos nove países, incluindo o Brasil.
Até o momento, cinco homens foram identificados no país: quatro estão presos e um responde em liberdade. Os suspeitos são oriundos dos estados do Pará, Ceará, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul. Foi a partir das mensagens trocadas com o suspeito preso em fevereiro que os investigadores chegaram aos demais envolvidos brasileiros. Na semana da divulgação do caso, o marido de uma das vítimas também foi preso e, em depoimento, confessou os crimes, descrevendo como triturou medicamentos e os misturou em um copo d’água para a esposa.
As cenas dos abusos eram gravadas e negociadas em sites na internet e em aplicativos de mensagens. Conversas obtidas pelos investigadores mostram a comercialização sendo tratada com naturalidade: pacotes com até cinco vídeos e fotos eram oferecidos a partir de R$ 59.
Para as vítimas, os sinais dos crimes se manifestavam como “apagões” inexplicáveis. Mulheres relataram perder a memória após consumir pouca quantidade de álcool e não compreender o motivo. Os agressores respondiam com mentiras, atribuindo os episódios ao excesso de bebida ou a outros pretextos. Uma das vítimas disse que via calmantes entre os pertences do parceiro, mas acreditava na explicação de que os remédios eram para insônia. Outra afirmou desconhecer completamente o uso de medicamentos controlados em sua casa.
“Eu perguntava para ele porque que eu tinha perdido a memória se eu tinha bebido tão pouco. Ele falava que não, que eu tinha bebido muito.”
Segundo o G1, a identidade dos suspeitos não será divulgada pelas autoridades para evitar a exposição das vítimas, que tinham ligações públicas com os criminosos. A medida reflete a natureza do esquema: crimes cometidos dentro de relações de proximidade, onde revelar o agressor significa, inevitavelmente, identificar quem foi violentado.
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